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Paradigma da história ocidental até os nossos dias, a Revolução Francesa (1789-1799) e o governo de Napoleão Bonaparte (1769-1821) transformaram profundamente as estruturas políticas, econômicas e sociais da Europa e das Américas no final do século XVIII e início do XIX.


Lançado pela editora Zahar, o livro de Jean-Paul Bertaud, A Queda de Napoleão: Um eletrizante relato dos três últimos dias de seu império, como nos diz o título, relata com detalhes as disputas políticas que puseram fim ao Império Napoleônico (1804-1815) e restauraram a monarquia na França.

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Com base em uma ampla gama de documentos, o autor – especialista na Revolução Francesa e no Império – nos revela os projetos de sociedade em questão depois da derrota francesa na Batalha de Waterloo, ocorrida em 18 de junho de 1815, e as tensões que se deram em torno deles.

A descrição de apenas três dias – de 21 a 23 de junho de 1815 – é permeada pela contextualização dos movimentos que surgiram ou se intensificaram desde o retorno de Napoleão Bonaparte do exílio na Ilha de Elba, determinado pelo Tratado de Fontainebleau (1814).

O autor nos descreve uma França marcada por problemas econômicos causados pela política belicista e expansionista de Napoleão e ameaçada pela indefinição e pela desordem administrativa. Mas, acima de tudo, intimidada por uma guerra civil que poderia estourar a qualquer momento.

O exército estava exaurido e desmotivado. Os realistas, que apoiavam em parte a dinastia Bourbon, em parte o Duque de Orléans, planejavam por todo país atentados e golpes de Estado. Os parlamentares dividiam-se em partidos diferentes, mas na sua maioria temiam a centralização preconizada por Napoleão, que tendia a diminuir as liberdades civis. Entre os agentes em disputa havia aqueles que, cogitando sobre as possibilidades dos desfechos, ficavam ora de um lado, ora de outro, na expectativa de se posicionar vantajosamente ao final do conflito. As intrigas e os boatos circulavam por toda parte, aumentando a tensão.

A questão que se colocava era se o imperador abdicaria ao trono para garantir os territórios e a autonomia política da França. Mas, se ele renunciasse, quem assumiria o seu lugar? Liberais, monarquistas, jacobinos e republicanos disputavam o projeto político que deveria ser implementado e quais deles seriam os agentes desse processo. Qualquer decisão poderia precipitar a guerra civil. Além de tudo, havia o medo de que os conflitos abrissem as portas para o questionamento dos problemas sociais mais profundos.

Em um relato que é ao mesmo tempo factual e conjuntural, o autor nos mostra a primazia da atuação daqueles homens, sobretudo de Napoleão e sua personalidade intrigante e complexa. Mas também aponta os limites impostos pelo desenvolvimento histórico, indicando que o desenlace do empreendimento napoleônico e a sua queda já haviam sido definidos antes do seu retorno da Ilha de Elba. Por outro lado, vemos se construírem diante dos nossos olhos os principais elementos que delinearam a história ocidental a partir daquele momento.