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roberto taddei

Duas coisas chamam atenção no romance Terminália, do paulistano Roberto Taddei, lançado pela Prumo. Uma é a insólita originalidade de sua temática, a vida de militares brasileiros nos confins da Amazônia, na fronteira com outros países amazônicos, e também, subsidiariamente, a vida de militares dos países com que os brasileiros têm de se defrontar diariamente.


Apesar de os militares terem sido tão importantes na vida da Nação, a ponto de a terem governado autoritariamente durante mais de duas décadas, ou talvez em razão dessa própria situação, é muito raro que sejam assunto de livros de ficção e mesmo de não ficção. Taddei mergulha corajosamente nesse universo arriscado: o de mostrar que os militares nacionais são, não apenas algozes, mas seres humanos, sem fazer a eles qualquer concessão.

A outra circunstância que atrai a atenção neste livro é a sua extrema veracidade. Normalmente, quando lemos ficção, temos de praticar aquilo que os críticos mais eruditos chamam de “suspensão da descrença”. Ou seja, temos de esquecer que estamos diante de simples imaginações e fantasias do autor e penetrar num universo de, no máximo, verossimilhança. Mas o romance de Taddei não é apenas verossímil: saímos, ao final de sua leitura, plenamente convencidos de que a história que ele conta é inteiramente “verdadeira”.

Tal a força de ficcionista de Taddei que chegamos a concluir que tudo aquilo “tem” de ter acontecido, é impossível que o autor seja tão imaginoso a ponto de construir ficticiamente personagens e si tuações que nos parecem tão plenamente “verdadeiros”. Quase podemos dizer que Taddei inaugura um novo gênero. Há perto de meio século, numerosos escritores americanos, como Truman Capote, criaram o “novo jornalismo”, narração, com recursos ficcionais, de fatos verdadeiros. Taddei parece ter seguido criativamente o caminho inverso: o de imaginar o que nos assombra como sendo um ultracompetente relato factual. A rigor, parece que estamos diante de um relato jornalístico.

Quanto à apresentação dos militares brasileiros, é impressionante como o autor penetra, sem preconceitos, na mentalidade deles, que até hoje acreditam terem sido os assassínios e as torturas praticadas por agentes governamentais durante o regime militar uma nobre saga de defesa da pátria contra “comunistas”. Verificamos que, independentemente da nossa opinião a respeito, esses cidadãos fardados acreditam que o regime militar foi um período honroso. Não que Taddei lhes faça concessões: ele apenas mostra  como esses compatriotas estão até hoje iludidos.

O autor se revela, nesse romance de estreia – tardia, pois ele tinha 34 anos quando terminou o livro, em 2009 –, um escritor de primeira, seguro de seu ofício a ponto de nos inserir num universo não só verossímil,  mas verdadeiro. As únicas peninhas são mínimas e não interferem a fruição desse grande romance: a informação incorreta de que São Paulo foi o único município brasileiro bombardeado por aviões durante toda a história – Campinas também foi alvo dos aviões “vermelhinhos” federais em meio à chamada Revolução Constitucionalista. E o fato de que a cidade da Guiana Francesa, Saint Georges, aparece às vezes sob a forma inglesa de Saint George. Fora isso, o romance é perfeito.

*Publicado originalmente em Carta na Escola