COMPARTILHE
bisa bia bisa biel

Sempre gostei de ouvir histórias. Desde pequena adorava conversar com os adultos e ouvir as histórias sobre suas lembranças de infância e sobre como a vida era diferente naquele tempo.


Acho que foi por isso que o livro Bisa Bia Bisa Bel, de Ana Maria Machado me marcou tanto. No fundo me sentia um pouco como a Isabel, personagem do livro, porque eu costumava sentar ao lado de meus avós e bisavós durante longas tardes para ouvir os tais “causos” de antigamente. Eles sempre foram grandes contadores de história e isso me fazia viajar no tempo. Era como se estivessem me contando seus segredos, quase como as conversas da pequena Bel com a foto da bisa Bia.

Além dessa identificação enorme com a personagem do livro, durante a minha primeira leitura, vivi momentos que nunca mais esqueci. Eu havia saído de casa carregando meu exemplar para terminar de ler assim que fosse possível. Naquela época eu fazia aulas de balé e era minha mãe que vinha sempre me buscar. Saindo da aula, toda faceira com minha saia cor-de-rosa, fui até o carro e quando abri a porta encontrei minha mãe com os olhos mareados terminando de ler o meu Bisa Bia Bisa Bel que tinha ficado no carro.

bisa-bia-bisa-biel

Ela tinha lido a história inteira, enquanto eu dançava! Lembro bem de ter invejado a velocidade da sua leitura. Mas o que me marcou mesmo foi pensar que a minha mãe, adulta e grande leitora, tinha se emocionado com as mesmas coisas que eu, num livro que eu tinha escolhido. E tinha tanta coisa ali que eu queria ter dito, tantas cenas que a Bel viveu com a bisa Bia e eu adoraria viver com a minha mãe. E de algum jeito, ainda que pelas páginas do livro, acho que acabamos vivendo tudo isso.

Quando chegamos em casa terminei a leitura tentando imaginar o que minha mãe tinha pensado enquanto percorria essa ou aquela página. E enquanto eu fazia isso, desejava que a vida fosse cheia de encontros como aqueles, de uma menina com o seu passado, de uma bailarina com sua mãe ou de uma leitora com sua história.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental