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Uma das nossas maiores autoras infantojuvenis, Lygia Bojunga Nunes, em  Livro, define este objeto: “Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena, os livros me deram casa e comida”. Para mim também. Tanto que um dia aconteceu de fato.


Eu lia as obras de Monteiro Lobato na biblioteca da escola. Aos 9 anos apaixonei-me perdidamente: não imaginava mais a vida sem o Sítio do Picapau Amarelo. Mas, como morava numa cidade no interior de Pernambuco, nem sempre era fácil obter todos os livros e, como faltavam poucos para ler a coleção inteira, não consegui esperar que a bibliotecária comprasse o livro que eu queria. Pedi emprestado à vizinha um dos que estava ansiosa para ler: O Minotauro.

Lembro-me bem do livro: encadernado, ­capa dura marrom, quase novo. Não me contive e parei ali mesmo, na calçada da casa ­dela, para abri-lo. Queria viver logo ­aquela ­aventura!

Tudo começava com a turma do Sítio dando-se conta de que Tia Nastácia fora “esquecida” na história do casamento do príncipe Codadad com a Branca de Neve, em que os monstros das fábulas invadiram a história. O jeito foi realizar uma expedição para resgatar a cozinheira. E lá se foram eles para a Grécia.

Nem fui para casa. Sentei-me na calçada e embarquei. Lembro-me de minha mãe me chamar algumas vezes: “Venha lanchar! Venha tomar banho! Vai escurecer!…” Aquele livro me deu, de verdade, casa e comida…

Escureceu. E só por isso voltei para casa. Num tempo recorde tomei banho, jantei e me enfiei na cama com deuses e heróis… Adormeci com o ponto final da história, que trouxe todo mundo de volta ao Sítio.

Mas, de alguma maneira, parece que ainda estou lá: nunca consegui me desvin­cular da Mitologia Grega. Descobrir aquele universo marcou a minha vida. Por ela entrei em contato com as grandes verdades universais, o que me ajudou a entender um pouco mais quem sou eu, ou quem somos nós. O Labirinto do Minotauro, para mim, é um lugar de onde eu nunca consegui sair…

*Publicado originalmente em Carta Fundamental