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Foi minha mãe quem me guiou na escolha das primeiras leituras e deu a primeira coleção de livros para povoar a prateleira do meu quarto. Poucas coisas me fizeram sentir tão importante. Nem mesmo o primeiro soutien.


As histórias vieram muito antes, na cama dos meus pais aos domingos, meu irmão e eu de “bolinho” neles, pedindo pro meu pai iniciar a contação. Minhas preferidas eram as histórias “reais” da Rua do Rocha. As peladas entre turmas rivais lá na vila; meu avô ameaçando raspar o pé dos moleques com caco de telha pra tirar aquele cascão horroroso; as batalhas de búlica e o butim de bolas de gude. Nascia o meu fascínio, então totalmente inconsciente, pela ação da memória na transformação de qualquer fato real em ficção.

Entre as histórias do meu pai e os livros dados por minha mãe foram muitos os encontros, mas com Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár, foi O ENCONTRO. O pequeno livro, quando caiu em minhas mãos de menina, tinha uma capinha já amarelada. Era um livro do meu pai que ele tinha lido quando garoto – aquele franzino das fotos antigas lá de casa. De codinome Orelha quando moleque, integrava-se com perfeição aos meninos da Rua Paulo.

Em minha memória tudo tinha acontecido nas ruas de piche derretido do subúrbio carioca do Rocha nos anos 1950. Uma trama tecida de literatura e minha bagagem literário-nostálgica recheada de aventuras do meu pai-menino. Só fui relembrar que a história da batalha épica pelo grund – o precioso terreno baldio da Rua Paulo – era ambientada na Budapeste de 1889 quando a reli há pouco.

O livro conta a disputa entre dois grupos de meninos – os da Rua Paulo e os camisas-vermelhas do Jardim Botânico. Espaço onde o exercício da infância não somente acontecia livre de censuras como adquiria a gravidade dos assuntos de Estado, o grund deveria ser assegurado pelo exército da Rua Paulo a qualquer custo.

Em minha recente releitura reencontrei nas palavras de Molnár e nas ilustrações de Tibor Gergely aquele pai-personagem: soldado defensor do chão sagrado da infância, guardado na memória, em algum lugar entre a Rua Paulo e a Rua do Rocha.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental