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Quem não gostaria de ler um livro escrito por uma mocinha entre os seus 12 e 15 anos, ainda mais se ela for bem-humorada, inteligente, sincera e atenta a tudo? A linguagem de Minha Vida de Menina é ao mesmo tempo simples e engenhosa, pois mexe com nossos pensamentos e nos prende do início até a última página. A narradora escreveu entre 1893 e 1895, quando começava a República no Brasil.


Há um trechinho que diz assim: “‘Aprecio sobremaneira um cacho de uvas, Dona Agostinha.’ Estas palavras nos fizeram ficar de queixo caído. Uma moça de Montes Claros dizer uma frase tão bonita!” A menina presta especial atenção ao modo como as pessoas falam e é fascinada pela sonoridade das palavras.

Coisas saborosas e instigantes perpassam todas as páginas de Minha Vida de Menina, de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, nascida em 28 de agosto de 1880, em Diamantina, Minas Gerais. Aconselhada pelo pai, pequeno minerador descendente de ingleses, Helena Morley escreveu um diário de adolescente que resultou num dos mais adoráveis livros do chamado gênero de formação. Falou sobre a família, a escola, a população, a cidade e a região próxima. Comentou os costumes arraigados, as relações sociais e suas contradições.

O livro retrata o cotidiano da sociedade brasileira na época da Abolição da Escravatura. As festas religiosas, o racismo, os preconceitos, os conflitos familiares, os segredos, os mexericos, as mesquinharias, grandes e pequenas invejas, a política, tudo é esmiuçado numa linguagem encantadora, cheia de humor, ironia, leveza, olhar arguto e amorosidade. “É uma coisa esquisita esta vida. Ninguém sabe o que a gente é por dentro…”

Publicado em 1942, obteve grande sucesso e rapidamente se transformou num dos clássicos da literatura brasileira, exaltado por Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade.

Quem ler esse livro vai se apaixonar pela mocinha narradora, que é de uma dimensão humana extraordinária e sabe falar com desenvoltura sobre os sentimentos mais íntimos. Sua narrativa é tão envolvente que a gente passa a conviver com ela e a se emocionar com os mistérios e as descobertas de sua alma juvenil. Um livro que comprova a magia das palavras e das entrelinhas desse mundo de puro encantamento que é a Literatura.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental