COMPARTILHE

Suscita ao menos dois questionamentos o livro Meu Kafka, da ilustradora alemã Stefanie Harjes, traduzido agora para o português pela editora CosacNaify.


O primeiro é saber qual a extensão de uma obra ilustrada. Ela deve apenas pontuar visualmente determinados trechos do texto ou fazer uma leitura pessoal de fragmento(s) literário(s)? O segundo questionamento é identificar o real público-alvo dessas publicações.

Comecemos pelo primeiro questionamento. Pode parecer redundante dizer que uma ilustração, ao registrar determinado momento de uma obra, faz uma interpretação subjetiva, em imagens, de como o desenhista lê aquele momento da história. O ponto, no entanto, é saber o que exatamente está sendo traduzido visualmente. Esse aspecto já não é tão óbvio assim.

O recorrente nas produções literárias brasileiras é usar o casamento entre palavra e imagem no corpo de obras infantojuvenis. Parte-se da premissa editorial de que a ilustração torna o conteúdo visualmente mais atraente aos leitores mais jovens.

Trata-se de uma articulação tão forte entre palavra e imagem que não seria equivocado questionar a autoria da obra: apenas do escritor ou do artista também, num processo criativo de coautoria? No mercado editorial brasileiro, o maior destaque, inclusive contratual, ainda é dado a quem redigiu o texto.

Outro uso da ilustração é para tornar reais as imagens mentais que o próprio leitor constrói ao acompanhar o conteú­do literário. Diferentemente do caso anterior, este não tem na ilustração um processo necessário para a condução do texto. Trata-se apenas de uma abordagem subjetiva de determinado momento (ou momentos) da trama abordada.

É exatamente esse segundo caso o que Stefanie Harjes faz em Meu Kafka. Ela reúne fragmentos dos escritos do autor tcheco e os verte em imagens, que representam o modo como a ilustradora enxerga o texto. Em outras palavras: ela põe no papel aquilo que o leitor apenas imagina, fazendo, como o próprio título antecipa, uma interpretação pessoal da obra kafkiana.

“Ah, querido Franz, eu te amei e te odiei ao mesmo tempo e quando você, repetidamente, me tirava o sono, era a sua presença que me ocupava… ininterruptamente!”, escreveu a autora na introdução do livro. E acrescentou: “Estes meses que eu praticamente passei só com você foram muito marcantes. Você invadiu e atravessou minha alma, e o que ficou… está estampado neste livro”.

Harjes apresenta ao leitor o fragmento literário original de onde se baseou para a elaboração de suas imagens. Em alguns casos, recorta mais de um momento da obra. Vê-se isso, por exemplo, na representação visual de A Metamorfose, ainda hoje a peça mais conhecida de Kafka. A ilustradora toma emprestado o início do texto, em que o protagonista Gregor Samsa acorda metamorfoseado em um inseto. Na sequência, reproduz outro trecho, já mais próximo do final, em que a irmã de Gregor toca violino para três inquilinos da casa.

A ilustração, de duas páginas, sintetiza os dois fragmentos da obra, mostrando como a autora enxerga aqueles momentos da narrativa. Essa proposta do livro é mais bem recebida pelo leitor que já conhece os trabalhos de Kafka e que vê nos desenhos uma oportunidade de comparar e compartilhar a subjetividade das experiências visuais proporcionadas pelos textos. Quem não conhece as peças originais, possivelmente não veja o mesmo atrativo no livro de Harjes, acentuado pela falta de conhecimento prévio de todo o conteúdo das obras originais.

Essa definição do real público-leitor de Meu Kafka é o segundo questionamento que o livro suscita. O interesse da obra estaria, em princípio, nos apreciadores de literatura em geral, em particular nos admiradores dos escritos do autor tcheco. Um perfil de leitor adulto, pelo que se depreende até aqui.

Estranha, portanto, a editora ter catalogado a obra como “literatura juvenil”. Além do conteúdo e da proposta em si, algumas cenas de nudez reforçam a interpretação de que o interlocutor deva ser mais maduro.

O que possivelmente ocorreu é uma confusão comum no meio editorial brasileiro. Pelo fato de a obra ser ilustrada, seria automaticamente voltada a um leitor infantojuvenil. O mesmo tende a ocorrer com as histórias em quadrinhos. Por serem trabalhos em quadrinhos seriam, necessariamente, destinados aos mais jovens. Essa interpretação já fez com que obras adultas fossem equivocadamente compradas para crianças em políticas governamentais de fomento à leitura.

Como se vê em Meu Kafka, a extensão de uma obra ilustrada é bem maior. Ela transforma em imagens fragmentos dos escritos de Franz Kafka. Quem já conhece o autor pode encontrar na proposta do livro um interessante diálogo por meio de imagens. Por outro lado, quem ainda não foi iniciado nos textos dele, o melhor caminho seria beber primeiro dos originais para depois, se for o caso e houver vontade, compartilhar a leitura individual com a feita por Stefanie Harjes.

*Publicado originalmente em Carta na Escola