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Luis Borges

Meu pai era um grande leitor e me estimulou desde cedo a ler grandes livros. Todos deixaram sua impronta em mim, mas o que mais firmemente se implantou na minha vida foi a História da Eternidade, de Jorge Luis Borges, que li por minha conta às escondidas quando tinha 12 ou 13 anos.


Por ele entrei no mundo borgeano, cujos limites se sobrepõem aos da realidade quando não os superam. Nunca mais quis sair desse mundo. Das várias magníficas histórias desse livro, a que mais me impressionou foi “A aproximação a Almotásim”, que Borges define como “um jogo com espelhos que se deslocam” (a game with shifting mirrors).

Como se ele próprio refletisse imagens de espelhos, Borges comenta o livro imaginário de um autor inexistente que descreve a história de um estudante indiano que procura afanosamente Almotásim, um ser magnífico que irradia seu esplendor através de outros, e assim ilumina a vida de cada um deles.

Durante toda minha vida procurei criar um jogo com shifting mirrors.  Finalmente, consegui fazê-lo este ano na neurociência, atividade que, como sabemos, espelha a realidade. Numa série memorável de experimentos com Jociane Myskiw e Fernando Benetti deduzimos os mecanismos intracelulares precisos de uma interação complexa entre comportamentos sem penetrar em célula alguma.

Usamos, como espelhos, sequências de funções celulares conhecidas; vimos como elas “resplendem” umas sobre as outras por mecanismos moleculares que regulam comportamentos específicos; e assim descobrimos uma nova função cerebral que permite liberar animais da prisão de ter de evocar um medo.

Além de sua evidente importância biológica, o achado é diretamente aplicável aos humanos, e poderá ajudar a quem sofre de estresse pós-traumático ou síndromes vinculadas.  Sinto algo parecido à personagem de Borges, quando abriu o último véu que a separava de Almotásim, ou ao próprio Borges quando descreveu esse momento. Agradeço a ambos.

Ivan Izquerdo é médico e neurocientista, especialista nos mecanismos da memória