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laura beatriz fisica

Um dos maiores desafios de ser professor é motivar os alunos para a disciplina que se leciona, em particular na área de Ciências. Como professor tive oportunidades de propor disciplinas de Física para a área de Ciências Biológicas e Humanas. Uma das minhas experiências mais interessantes foi o curso “Física para poetas”.


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Trata-se de uma disciplina que existe em muitas universidades no exterior para cursos da área de Ciências Humanas. O objetivo é apresentar a Física sem formalismo matemático, destacando a parte mais bela e fascinante. A minha versão de Física para poetas é um pouco diferente.

Além de utilizar o mínimo de formalismo matemático, costumo introduzir alguns elementos relacionado às artes, como a própria poesia, música, cinema e imagens de obras de arte. A escolha dos temas a serem abordados também tem alguma inspiração poética.

“O enigma do movimento”, “Memórias de um carbono”, “Admirável e fascinante pequeno mundo” e “O tempo em nossas vidas” foram algumas das aulas do curso. Na primeira foi possível falar sobre algumas das questões mais importantes da Física, como o movimento planetário, inércia e Teoria da Relatividade, de Einstein.

“Memórias de um carbono” é uma narrativa de um átomo de carbono contando a sua história, desde o seu nascimento, em uma distante estrela que morreu há bilhões de anos até o momento que esse átomo acabou de sair pela nossa respiração. Temas como Astronomia, Biologia, Evolução e Química surgiram ao longo dessa aula.

Na aula “Admirável e fascinante pequeno mundo” foi discutido o universo dos átomos, começando com as concepções gregas sobre a constituição da matéria e chegando à Física Quântica, uma descrição do mundo atômico. Gilberto Gil foi uma grande inspiração, por meio de seu álbum Quanta.

Em “O tempo em nossas vidas” é apresentado esse fascinante conceito físico que envolve não somente a Física, mas também a Biologia e até a Psicologia. Algumas músicas de Chico Buarque, Caetano Veloso, poesias de Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade ajudaram nessa abordagem. Não faltou também Tempo Rei, de Gil.

Apresentar conceitos científicos dessa forma requer um pouco de experiência, mas principalmente a percepção de tentar correlacionar a Física (e a ciência em geral) com as Artes, uma outra forma de manifestação do conhecimento humano. Como professor sempre pensei que mais do que ensinar uma disciplina devemos mostrar para os nossos alunos por que nos apaixonamos por ela.

*Adilson J. A. de Oliveira é professor do Departamento de Física e vice-reitor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor do livro A Busca pela Compreensão Cósmica