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Gregor Samsa

Um século se passou desde que A Metamorfose, de Franz Kafka (1883-1924), foi publicada pela primeira vez, em 1915. A narrativa, capaz de conferir realismo a um episódio absurdo, tornou-se uma referência dentro da literatura universal e sintetiza o desconforto enigmático pela qual a linguagem kafkiana ficou conhecida.


Para marcar o centenário da obra, a Casa das Rosas, em São Paulo, apresenta a exposição Um corpo estranho – Centenário de publicação de A metamorfose, de Kafka, que percorre os principais elementos do livro bem como seus desdobramentos filosóficos e estéticos na atualidade.

Segundo Reynaldo Damazio, curador da exposição, além de ser uma obra representativa do estilo e conteúdo do escritor tcheco, é um texto relevante para interpretamos a sociedade que vivemos hoje. “A Metamorfose junto com O processo representam bem essa condição do absurdo que a gente vive, do sujeito massacrado pelas instituições, que tem sua subjetividade tolhida pela repressão da realidade, da política, do Estado, da burocracia. A busca de sentido neste mundo burocrático e tecnológico que a gente vive”, explica Damazio.

A obra centenária narra a transformação aparentemente absurda do caixeiro viajante Gregor Samsa, que um dia acorda na pele de um inseto repugnante. Uma transfiguração que acaba por revelar, materializar a condição terrível que já vivia como humano, subjugado e humilhado no trabalho e na família. “Então é uma transformação meio ilusória. O Kafka brinca com isso, tem uma ironia e crítica latente no texto”.

O curador explica que muitos dos personagens de Kafka, como Gregor Samsa de A Metamorfose ou Josef K. de O processo, se veem sujeitos a uma ordem social que precisam cumprir, mas que em nenhum momento questionam o sentido. Em O processo, o personagem é processado e condenado por algo que ele nunca chega a saber.

No caso de A Metamorfose, Gregor se transforma em um monstro e narra o episódio como se fosse uma fatalidade que atrapalha sua vida cotidiana. “No começo ele fica, ‘mas eu preciso trabalhar, preciso pegar o trem para vender meus produtos, vou ser demitido’, ou seja, fica preocupado não com a transformação em si, mas em manter a ordem. Ele acabou de se transformar numa coisa estranha, monstruosa, mas nada disso importa, ele está preocupado em cumprir o que é esperado dele. São críticas que se mantêm atuais mesmo passados 100 anos”.

Retrato de Kafka
O escritor tcheco Franz Kafka

A exposição está organizada em três núcleos expositivos, mesmo número de capítulos da obra: Corpo mutante, Corpo palavra e Pós-corpo. O primeiro deles é dedicado a refletir “A Metamorfose” e a transformação pela qual o personagem principal passa ao se ver transmutado em um inseto asqueroso. Para isso, o quarto de Gregor é representado como uma espécie de labirinto ou microcosmo da cidade de Praga, onde vive.

No segundo espaço expositivo, apresenta-se aspectos pessoais da vida de Kafka como seus vários noivados e a relação tensa com o pai, bem como sua ligação com a linguagem e a literatura. Por fim, o terceiro núcleo reúne alguns desdobramentos da obra kafkiana, como críticos e artistas influenciados pela sua escrita e possibilidades de interpretação levantadas pelos seus livros.

“A gente montou também um espaço que traz a ideia da metamorfose para os dias de hoje por meio da busca pela identidade da transposição pelo gênero”, conta o curador. “Assim, no final do percurso, o visitante se depara com um painel que retrata um homem que se transforma em uma mulher, que vive a identidade feminina”.

Kafka
Em “A Metamorfose”, Gregor Samsa se transforma em um inseto asqueroso, uma narrativa que transita entre o absurdo e o realismo

É possível agendar visitas monitoradas para grupos escolares, seja de alunos ou de educadores. Damazio lembra que a obra do escritor vai muito além das aulas de Literatura, podendo ser trabalhada nas salas de Filosofia, Sociologia, entre outras. “Acho que é uma leitura pela qual o leitor não passa impunemente, mexe muito com a sensibilidade, com a inteligência. Temos esse trabalho de monitoria porque a ideia é mesmo receber alunos e professores”.

“Um corpo estranho” fica em cartaz até final de fevereiro de 2016 e é um convite para aproximar as novas gerações deste importante nome da literatura universal. “Não é uma exposição didática, não queremos explicar o Kafka, suas características literárias, mas fazer o visitante mergulhar em seu universo, no seu texto”, explica Damazio.

“Considero Kafka um autor fundamental para a formação literária de qualquer pessoa. Passado um século, continua sendo lido e continua influenciando artistas. Kafka permite muitas leituras, é uma interpretação que nunca se fecha”, conclui.

Saiba mais
Um corpo estranho – Centenário de publicação de A metamorfose, de Kafka