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Crônicas do brejo

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Ilustração de Odilon Moraes para o conto de Rosana Rios
Ilustração de Odilon Moraes para o conto de Rosana Rios

Toda cidade precisa de um cronista. Alguém que conte tudo sobre ela: as origens, as construções, as famílias, as curiosidades. Não os fatos simples (quem saiu com quem, quem casou com quem, escapulidas de um ou sandices de outro); isso fica na esfera da fofoca. As crônicas de uma comunidade são mais que fofocas, são história.


Leia atividade didática inspirada neste conto
Ano do Ciclo: 4º ao 6º ano do Ensino Fundamental
Objetivos de aprendizagem: Trocar impressões com outros leitores a respeito dos textos lidos; Estabelecer relações intertextuais; Apoiar-se em textos conhecidos para produzir outros.

Atividades Didáticas | Crônicas do Brejo 

Por Luísa Nóbrega e Maria José Nóbrega

Área Envolvida: Língua Portuguesa
Possibilidades interdisciplinares: História
Tempo de Duração: 5 aulas

Em Crônicas do Brejo, Rosana Rios lembra-nos de que, entre os fatos ditos reais, os boatos que circundam qualquer acontecimento e os relatos escritos que entrarão para a história, existe espaço de sobra para uma boa dose de contradição. Mais ainda quando se trata de uma cidade como Brejo Molhado do Oeste, com altíssima incidência de anfíbios, aranhas e bruxas por metro quadrado.

Com perspicácia, a autora traça o perfil dessa cidade bastante curiosa sem em momento algum nos dar certeza absoluta a respeito de coisa alguma: quando se trata de escrita e feitiçaria, não se pode menosprezar a possibilidade de que encantamentos diversos distorçam a realidade, e que muita coisa nos escape. O narrador, aqui, assume a função de mediador entre o leitor e as crônicas redigidas por Esmengárdia Trampolim, principal fonte de informações a respeito da pantanosa cidade.

1) Chame a atenção de seus alunos para o título: Crônicas do Brejo. Em que consiste uma crônica? Quais são os sentidos possíveis para essa palavra? Que espécie de ecossistema é um brejo? Proponha que pesquisem a respeito dos dois tópicos.

2) A primeira frase é bastante taxativa: Toda a cidade precisa de um cronista. A partir daí o primeiro parágrafo deixará claro que a palavra crônica do título se refere menos ao gênero de texto em sua acepção contemporânea do que às crônicas históricas. Prepare para seus alunos uma pequena seleção de fragmentos de crônicas históricas de épocas diversas, para que compreendam melhor a que gênero de texto a autora se refere.

3) Veja se seus alunos percebem como a autora cria efeitos de humor, jogando com a sonoridade dos nomes próprios de pessoas e lugares.

4) Peça a seus alunos que prestem atenção ao modo como, no decorrer do texto, o narrador enumera duas ou mais versões dos mesmos fatos, sem optar de modo definitivo por nenhuma delas.

5) No nono parágrafo, lê-se: Alguns alegam que isso não pode ser provado. Mas foi registrado em crônica e a maioria dos brejenses acredita na palavra escrita (que também é uma forma de encantamento). Discuta com seus alunos essa passagem: até que ponto é possível acreditar nos registros históricos que chegam até nós? Será que a história é uma disciplina que trata da verdade ou, pelo contrário, seu papel é perceber as convergências e lacunas entre os registros a respeito de eventos que supostamente se tomaram como factuais? Se possível, convide um historiador para discutir o tema com a turma.

6) Veja se seus alunos notam como a autora alude de maneira irônica às fraudes eleitorais na seguinte passagem: Os moradores das águas brejosas (sapos, rãs, pererecas) superam o número de moradores humanos; houve até um vereador que quis mudar a lei para que batráquios pudessem votar, porém o projeto não foi adiante. Ora, votações de eleitores fantasmas, voto de cabresto e outras práticas afins foram bastante corriqueiras no Brasil por muito tempo… Proponha que seus alunos pesquisem um pouco mais sobre o assunto.

7) Chame a atenção da turma para a seguinte passagem: Com tantos ingredientes fundamentais à preparação de poções, elixires e chás mágicos (todo mundo sabe que água de brejo e teias aracnídeas possuem propriedades encantadas), nada mais natural que o lugar atrair bruxas, magos e feiticeiros. E isso bem antes de livros sobre escolas de magia virarem moda… Veja se seus alunos percebem a referência à série Harry Potter.

8) No décimo segundo parágrafo, lemos: Na época, a biblioteca local tinha apenas coleções de contos de fadas. E como nessas histórias as bruxas só se dão mal, as leituras não ajudaram em nada. Isso até que ela encontrou a saga da feiticeira que transformou um príncipe em sapo, o que mudou sua vida. Converse com seus alunos sobre o modo como o ponto de vista de um leitor pode mudar completamente o teor de uma narrativa: a feiticeira lia os contos de fada do ponto de vista das bruxas, é claro.

9) Durante todo o texto, o narrador faz referência às crônicas de Esmengárdia Trampolim, sem nunca as citar diretamente. Proponha que seus alunos escolham uma das crônicas mencionadas (O Construtor, Os Brejos e A Bruxa e o Sapo da Bruxa) e a escrevam, desenvolvendo uma das narrativas esboçadas no decorrer do texto e colocando-se no lugar da célebre cronista de Brejo Molhado do Oeste.


Pois, no município de Brejo Molhado do Oeste, a mais importante de todos os cronistas é a senhora Esmengárdia Trampolim, que foi dona de casa por 40 anos e se dedicou à escrita após a morte do marido.

O senhor Trampolim teve um enfarte após ver seu time, o Brejense Futebol Clube, perder do time da cidade rival, Brejo Seco do Leste Esporte Clube, por 15 a 0. As más línguas, porém, dizem que ele morreu mesmo de um FBF (Feitiço Bruxal Fulminante), por ter rido de uma desafortunada queda na rua de sua distinta vizinha, Circidéia Morganal. Para azar do risonho torcedor, ela tinha fama de ser a mais poderosa bruxa da cidade, e não tolerava risadas.

Se tem uma coisa que todos os moradores de Brejo Molhado do Oeste concordam, é que a cidade possui a maior incidência de bruxas por metro quadrado.

Tenha o falecimento ocorrido por futebol ou magia, após o enterro e o casamento do único filho, que foi morar justamente em Brejo Seco do Leste (dizem que quem ia para lá jamais voltava), Esmengárdia cismou de virar escritora. Pôs-se a registrar num caderno tudo o que via acontecer e o que ouvira seus pais e avós contarem sobre as origens do município.

Segundo sua crônica O Construtor, existem bruxas na região desde a fundação da cidade. Mesmo os historiadores concordam que o famoso fundador da Freguesia, nos anos 1800, começou a construir no local por causa de um encantamento. O Comendador Cansaldo Mofino da Horta Paletó vivia num sítio decadente junto ao brejo, e era um grande folgado. Passava a manhã tomando café e a tarde almoçando; aí estava cansado demais para trabalhar e resolvia esperar o jantar, depois do qual só lhe restava ir dormir. Pois um dia sua sogra, mulher experimentada nas artes da feitiçaria, preparou-lhe uma limonada misturada com ervas mágicas capazes de transformá-lo num trabalhador incansável.

Deu certo: o homem começou a moldar tijolos de barro e a construir casas sem parar, bem no meio do brejo. Foram as primeiras moradas da Freguesia, que cresceu e virou próspera cidade.

Cansaldo nunca parou de construir e trabalhou até morrer, aos 73 anos, engasgado com um pedaço de tijolo que engoliu pensando que era doce de abóbora. A esposa chorou e a sogra festejou.

Alguns alegam que isso não pode ser provado. Mas foi registrado em crônica e a maioria dos brejenses acredita na palavra escrita (que também é uma forma de encantamento).

Em outra crônica de dona Esmengárdia, Os Brejos, ela afirma que a presença dos praticantes de magia na cidade deve-se à enorme quantidade de sapos. É que o município é cercado por pântanos, lagoas e mangues. Os moradores das águas brejosas (sapos, rãs, pererecas) superam o número de moradores humanos; houve até um vereador que quis mudar a lei para que os batráquios pudessem votar, porém o projeto não foi adiante.

Seja como for, há também por lá uma população crescente de mosquitos e aranhas, para alegria da saparia e desespero das pessoas. Com tantos ingredientes fundamentais à preparação de poções, elixires e chás mágicos (todo mundo sabe que água de brejo e teias aracnídeas possuem propriedades encantadas), nada mais natural do que o lugar atrair bruxas, magos e feiticeiros. E isso bem antes de livros sobre escolas de magia virarem moda…

Entretanto, a crônica mais famosa de Esmengárdia é, sem dúvida, a que narra as desventuras de Circidéia Morganal, a suspeita de ter enfeitiçado o finado senhor Trampolim. No texto “A bruxa e o sapo da bruxa”, publicado no jornal local e em uma coletânea sobre folclore da Universidade de Brejo Molhado do Oeste, ela revela que a citada senhora sofria de constantes ataques de tristeza.

Dona Circidéia não apenas detestava risadas: ela nunca ria. Era tristonha desde a unha do dedinho do pé esquerdo até o mais alto fio do cabelo desgrenhado. E todos sabem que tristeza enjoa. Um dia a distinta senhora acordou tão deprimida que decidiu ir à biblioteca em busca de livros de autoajuda que a tornassem uma pessoa feliz.

Não deu muito certo. Na época, a biblioteca local tinha apenas coleções de contos de fadas. E como nessas histórias as bruxas só se dão mal, as leituras não ajudaram em nada. Isso até que ela encontrou a saga da feiticeira que transformou um príncipe em sapo, o que mudou sua vida.

Circidéia esqueceu-se de que detestava risadas e divertiu-se tanto com o conto que decidiu imitá-lo: capturaria um príncipe para fazê-lo coaxar. Saiu pesquisando encantamentos de transformação, alteração de DNA, mutação genética e outras possibilidades para o feitiço que desejava. Até aí, tudo bem. O problema foi achar a cobaia.

Não adiantaria telefonar para as amigas, perguntando se alguma tinha um príncipe sobrando na masmorra. A República já tinha sido proclamada e os descendentes da antiga família real andavam longe demais para ser capturados. Circidéia não arranjou sequer um primo distante de algum príncipe que pudesse ser encantado.

Certo dia, ela estava andando pela cidade, tristonha como sempre, pensando em como são raros os príncipes hoje em dia, quando passou pelo brejo e ouviu os sapos coaxando. A ideia nasceu: e se fizesse o contrário? Se, em vez virar um príncipe em sapo, virasse um sapo em príncipe?

Valia a pena tentar, e lá foi ela para os pântanos, lagoas e mangues, em busca do sapo ideal.

Exigente como era, custou a encontrar um que lhe agradasse. Ou eram muito gordos, ou muito magros, ou rápidos demais e escapavam. Até que, após semanas de procura, ela viu um bem de jeito, distraído a caçar moscas. Infelizmente a crônica de Esmengárdia Trampolim não revela como foi a captura do batráquio, diz apenas que ele foi levado para o solar dos Morganal.
Durante um mês ela estudou a cobaia. No mês seguinte, reescreveu os encantamentos para obter o efeito contrário: transformar o sapo num rapaz de sangue real. No terceiro mês começou as experiências. Todas as manhãs Circidéia dizia as palavras mágicas que conhecia e mais as que inventava. Misturava poções, chás e elixires, à procura da fórmula mágica. Nos intervalos saía para trazer insetos que alimentassem o hóspede.

E o sapo? Ah, ele estava bem satisfeito com aquele vidão. Não é qualquer sapo que tem alguém para cuidar dele, na esperança de que um dia vire príncipe.

Diz a crônica que o tempo passou e nada de o sapo se transformar. Tudo indica que a senhorita Morganal não descobriu o encantamento perfeito. Pode ser que nem descubra. Mas ficou tão ocupada com as tentativas que nunca mais foi vista nas ruas de Brejo Molhado do Oeste com cara triste. Ela pode não ter conseguido um príncipe, mas arranjou um belo sapo de estimação…

Quanto a Esmengárdia Trampolim, já encheu sete cadernos com crônicas da cidade, e está iniciando o oitavo, também recheado de sapos, bruxas e brejos.

* Rosana Rios é arte-educadora e autora de livros infantis e juvenis


Outros livros de Rosana Rios

Um Bairro Encantado – Scipione

Enigma em Barcelona – Callis Editora

O Monstro Monstruoso da Caverna Cavernosa – DCL Editora

O Encafronhador de Trombilacios – Scipione