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Em comparação com o que a indústria americana faz e sempre fez, o nosso cinema ainda engatinha na exploração da rica matéria-prima que a cultura brasileira oferece na forma de episódios históricos, personagens verídicos e livros de ficção.


Basta lembrar, entre incontáveis exemplos, o esquecimento a que tem sido relegada a obra extraordinária de Lygia Bojunga Nunes – homenageada com o Hans Christian Andersen, o mais importante prêmio internacional da literatura infantojuvenil, em 1982.

Se fosse uma escritora americana ou europeia, é provável que, ao menos, meia dúzia de adaptações de suas histórias intimistas (entre elas, Os Colegas e A Bolsa Amarela) tivesse contribuído, a esta altura, para apresentar o seu universo a um público mais amplo.

Aplausos, portanto, para Corda Bamba – História de uma Menina Equilibrista, que tem o mérito de identificar, na escrita envolvente de Lygia Bojunga, chaves convidativas para a linguagem audiovisual – personagens e situações que possibilitam inúmeras leituras.

“Maria ficava um tempão na janela do quarto dela”, diz a abertura do segundo capítulo do livro, intitulado Janelas. “Olhando. Olhando. Parecia até que tinha uma vista muito bonita lá fora. Não tinha: o quarto dava pra uma área interna, só se via fundo de apartamento. Mas Maria ficava olhando, olhando um tempão.” Cheio de significado poético no contexto da trama, esse trecho ganha tradução no filme, mas a ideia expressa ali – da personagem que olha para um lugar e enxerga outro – funciona como espécie de pauta visual para toda a história.

Corda Bamba beneficiou-se por ser um projeto de família, capitaneado pelo diretor e roteirista Eduardo Goldenstein, em sua estreia em longa-metragem, e por sua mulher, a produtora Katya Goldenstein. Para completar, a filha do casal, Bia, interpreta a protagonista, Maria. Seus pais (Gustavo Falcão e -Georgiana Góes) eram equilibristas de circo. Quando o filme tem início, assim como no romance, a menina está sendo levada por seus padrinhos, o casal Barbuda (Claudio Mendes) e Foguinho (Augusto Madeira), até a casa da avó (Stela Freitas), com quem ela vai morar.

Supõe-se que terá início uma nova fase de sua vida. O problema é que Maria ainda precisa arrumar as coisas do passado, sobretudo aquelas que dizem respeito a seus pais. Não é um papel simples para uma criança, mas Bia vive a personagem com uma intensidade discreta, na esperança de que o espectador conseguirá capturar, por trás de sua expressão delicada, toda a dor que carrega mais uma das figuras extraordinárias criadas por Lygia Bojunga.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental