Início Conto O Recado do Rei

O Recado do Rei

1576
0
COMPARTILHE

Depois de muito brincar


De bola, pique e peteca,

A Imperatriz Menininha

Entrou toda esbaforida

Pra pegar uma boneca.

Leia atividade didática de Língua Portuguesa baseada neste conto inédito
Ano do Ciclo: 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental
Objetivos de aprendizagem: Recorrer a outros textos para compreender passagens do texto; Observar o funcionamento do ritmo em poemas; Relacionar o tratamento dado à rima aos efeitos de sentido que provoca

Decifra-me ou…
Por Luísa Nóbrega e Maria José Nóbrega

Luciano Meira constrói um divertido poema narrativo cuja estrutura remete claramente às cantigas e contos de repetição da cultura popular, bem como à literatura de cordel. Nele, uma Imperatriz Menina recebe do rei um misterioso recado em latim, encarregando seu gato de consultar os sábios do reino para que a ajudem a decifrá-lo. Depois de consultar eminentes figuras como o bobo da corte, o Mestre de Aviz e o cirurgião, o gato chega à conclusão de que nenhum dos tais eruditos tem familiaridade com a língua morta. Diante do pequeno fiasco, a pequena Imperatriz resolve publicar um conto com a misteriosa frase, para que um futuro leitor possa um dia decifrá-la.

Área Envolvida: Língua Portuguesa

Tempo de Duração: 3 aulas

1. Como se trata de um texto cuja sonoridade apresenta um caráter lúdico, seria interessante propor uma leitura em voz alta, para que seus alunos percebam o uso das rimas e a cadência rítmica dos versos. Uma possibilidade é realizar uma leitura coletiva em forma de jogral, deixando a cada aluno a tarefa de ler uma estrofe.

2. Comente com a turma que o poema está escrito em redondilha maior, a métrica mais frequente na literatura popular. Aproveite para ensiná-los a contar as sílabas poéticas do poema, chamando atenção para o fato de a contagem terminar na sílaba tônica da última palavra de cada verso.

3. Veja se seus alunos percebem como o texto se estrutura sobre uma dinâmica de repetição, de pergunta e resposta: o gato Tibum repete aos sábios do reino reiteradas vezes a mesma pergunta, e recebe respostas de quatro versos nas quais o primeiro verso é um verso branco, o segundo termina em uma palavra que rima com latim, e os dois últimos versos rimam entre si.

4. Chame a atenção para o uso de expressões coloquiais no decorrer do texto, e o modo como elas representam um contraponto bem-humorado à seriedade do latim: “prasuncê”, “não tô afim”, “tô chinfrin”.

5. Proponha que seus alunos realizem a tarefa que a Imperatriz Menina legou ao leitor do futuro: descobrir, enfim, o sentido da mensagem do rei. Hoje em dia, com o auxílio do Google Tradutor, não é difícil verificar a pronúncia correta da frase latina, além de descobrir o sentido da frase: Não faças aos outros o que não queres que te façam. A mensagem do rei nada mais é do que um famoso provérbio existente também em português.

6. Após ter decifrado o sentido da frase latina, veja se a turma percebe que a personagem, ao deixar ao leitor a tarefa de traduzir a mensagem, acabou fazendo o contrário do que o provérbio recomenda.

7. Converse um pouco com seus alunos a respeito do latim, que costumava ser uma disciplina obrigatória nas escolas brasileiras até 1964. O que significa uma língua morta? Comente com a turma que a língua, que se difundiu pelo mundo no período do Império Romano, é a origem das línguas neolatinas, como o português, o francês e o italiano. Embora não possua mais falantes nativos, ainda é utilizada na liturgia da Igreja Católica, e costumava ser a língua dos filósofos e acadêmicos da Idade Média até o Renascimento.

8. Na 15ª estrofe, o gato Tibum, ao dar-se conta de que todos aqueles que tinha procurado esquivaram-se da tarefa, acaba por se perguntar: “No reino dos reis latinos/seriam os sábios cretinos”? Leia com seus alunos o conto A roupa nova do imperador, que conta a história de dois malandros que se fingem de alfaiates para tirar proveito da cretinice dos nobres e sabes de seu reino.

9. Leia para seus alunos o conto O homem que sabia javanês, de Lima Barreto, em que um homem torna-se bem-sucedido fingindo saber falar uma língua malaia que ninguém no Brasil conhece.

“Tem recado prasuncê”,

Disse a ama Zanzuê.

 

O recado era do Rei,

Escrito inteiro em Latim.

“Recado do Rei pra mim?”

“O que ele diz eu num sei”.

 

Alteri ne facias quod

tibi fieri non vis.

“Que recado mais estranho!

Será que é alguma que eu fiz?”

 

A Imperatriz Menininha

Chamou seu gato Tibum:

 

“Leva pro bobo da corte

Esse recado do Rei.

Preciso da tradução,

Que o que ele diz eu não sei.”

 

O gato Tibum foi ao bobo:

“Você conhece Latim?”

 

“Conheço todas as línguas,

Mas hoje não tô a fim.

Leva pro cirurgião

Que ele morou no Lapão”.

 

O gato foi ao doutor:

“Você conhece Latim?”

 

“Conheço todas as línguas

Mas hoje acordei chinfrim.

Leva pro Mestre de Aviz

Que ele nasceu em Paris”.

 

O gato encontrou o Mestre:

“Você conhece Latim?”

 

“Conheço todas as línguas,

Mas vi hoje um Querubim.

Fiquei em estado de graça.

Leva pro Cura na Praça”.

 

O gato Tibum foi ao Cura:

“Você conhece Latim?”

 

“Conheço todas as Línguas,

Dá o bilhete pra mim”.

Leu, releu e treleu…

“Sinto, pra mim não deu”.

 

Tristonho, o gato Tibum,

Depois de errar de um em um,

Levantou uma suspeita:

“No Reino do Reis Latinos

Seriam os sábios cretinos?”

 

Retornou à Imperatriz,

Que pensou com os seus botões:

 

Alteri ne facias quod

tibi fieri non vis.

Que recado mais estranho,

Será que é alguma que eu fiz?”

 

Resolve escrever um conto

Com o enigma obscuro,

Pra que enfim um tradutor

Se apresente no futuro.

 

Há de ter um dicionário,

Um dia, um leitor feliz:

Alteri ne facias quod

Tibi fieri non vis”.