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Foi no caminho para o colégio que tudo começou. De repente, do céu, choviam pássaros. Quem podia imaginar que pássaros pudessem despencar como pedras sobre nossas cabeças? Quem podia pensar que pássaros desaprendessem a voar?


Não desaprendiam. Tinha de haver uma explicação. Um deles atingiu em cheio a minha cabeça e olhei para o alto com vontade de xingar, reclamar, mas não havia com quem. Nesse caso, não tinha um culpado, sequer um motivo aparente.

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Olhei para o pássaro-agressor estirado no chão, sem mover-se, com olhos arregalados, e tomei-o nas mãos. Estaria morto? Estaria intoxicado? Pus a mão em seu corpo, estava frio como gelo. Tentei em vão localizar seu coração, mas desconhecia completamente a anatomia dos pombos. Então me veio uma urgência inexplicável, uma necessidade de salvar aquela vida, se ainda fosse possível.

Andei com o pombo nas mãos pelas ruas repletas de gente assustada até encontrar uma placa vermelha que dizia: “Traduzem-se coisas”. O dia já havia começado de um jeito tão estranho que nem questionei a placa. Espiei pela porta entreaberta, onde vi um senhor de barba branca lendo calmamente um livro, alheio a tudo que acontecia na rua. Sem me anunciar, fui entrando. A mesa do tradutor de coisas estava repleta de livros e ele parecia absorto em traduzir alguma máquina indecifrável. Aproximei-me um pouco mais, com o pombo nas mãos, ainda sem saber se ele traduzia esse tipo de fenômeno.

O homem fumava um cachimbo e o ambiente tinha um cheiro forte, quase insuportável. Deitei o pombo sobre a mesa e já pensava em sair dali, quando ele me cutucou com sua bengala:

Então é desses que desistem facilmente, garoto?

– Eu? Não, é que… Não sei se há o que fazer.

– Sempre há o que fazer, mesmo que não seja o esperado – ele disse.

Então, aproximou o nariz do pombo, fez um carinho nele, abriu suas asas, examinou-o por completo. Seria possível decifrar algo mais sobre aquele pombo? Sobre todos os outros pombos caídos numa tarde sem chuva?

Como se adivinhasse meus pensamentos, tradutor de coisas levantou-se da cadeira e tornou a colocar o pombo em minhas mãos.

– Você é o segundo que vem aqui hoje com esse problema… Mas não pense que é um problema de fácil tradução, meu caro. Qual o seu nome?

– Rocco, mas o pessoal me chama de Rock.

– Então, Rock, pode me chamar de Jamal. Saiba que traduzir máquinas ou livros, mesmo dos idiomas mais distantes, nunca será tão difícil quanto traduzir a natureza. Onde isso aconteceu?

– Na calçada, agorinha mesmo…

– E chovia? – Jamal quis saber.

– Não. Chuva nenhuma. Nem som de trovoada.

– Nuvens? Reparou em nuvens?

Ele foi saindo comigo daquela espécie de loja e me levando de volta para a rua enquanto examinava o céu com uma luneta dourada.

– Turbinas de aviões e pássaros nem sempre se entendem, meu caro Rock. Mas dessa vez, o pombo está inteiro e o problema parece ter sido outro.

– Mas qual?

– Uma poluição de longa data, que vem mudando tudo no clima. Tudo. Está vendo aquela nuvem ali mais negra? – ele apontou a luneta e me ofereceu para observar.

Era mesmo uma nuvem bem negra no meio de outras brancas. Que seria? A nuvem mais poluída do mundo sobre a cidade mais poluída do país?

– Trata-se de uma raríssima cumulus gelis – anunciou Jamal. – Uma nuvem atípica de gelo formou-se em nosso céu tropical, pegando os pombos de surpresa.

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Seria verdade? Seria possível? Existiria tradução certa para um fato daqueles ou tudo não passava de invencionismo daquele homem estranho? De qualquer modo, ele parecia ter alguma razão. O pombo agora estava molhado, como se o gelo que o havia congelado houvesse enfim derretido. O pombo em minhas mãos estava morto. Irremediavelmente morto.

– Que podemos fazer? – perguntei, angustiado.

– Enterrá-lo, é claro! Mas é aí onde o problema começa. Onde, nesta calçada cheia de cimento, nesta cidade toda mineralizada, onde se encontra terra para enterrar um pobre pássaro?

Voltando à loja, Jamal pegou duas ferramentas verdes, que pareciam picaretas e um punhado de sementes que brilhavam feito vaga-lumes. Percebendo meu fascínio, ele me entregou uma.

– Guarde bem. Vamos precisar de todas elas. Agora, ao trabalho.

Jamal começou a quebrar a calçada em frente à sua loja e eu o segui, sem pensar em escola, almoço, casa, futebol. Mesmo sem nunca ter tido cachorro, gato, aquário, não conseguia mais ignorar aquele pombo inerte, sem nome. Coloquei-o cuidadosamente no chão e aceitei a picareta oferecida por Jamal. Juntos, batemos e batemos sobre aquela calçada dura, até encontrarmos a terra, escondida debaixo do cimento. Antes de enterrar o pombo, dei secretamente a ele um nome e Jamal me entregou algumas pétalas para cobrir o pássaro inerte.

– Que sua morte não tenha sido em vão – disse o tradutor de coisas de um modo solene.

Foi então que pegou as sementes luminosas e sugeriu que plantássemos exatamente ali, junto ao pombo, onde a terra havia sido reencontrada.

– Precisamos de mais árvores, de mais plantas, de menos asfalto. Chega de concretos. Chega desta concretude insuportável! Animal algum sobrevive cercado de concreto por todos os lados? Não! Muito menos o homem – bradou Jamal, tomado por uma espécie de fúria revolucionária.

Enquanto, pela primeira vez, eu encostava a mão na terra plantando sementes, Jamal bradava contra os edifícios, contra as paredes, com as pontes ao redor, contra aquela dureza toda.

A terra que minhas mãos tocavam, ao contrário, era úmida, macia, acolhedora.

– Que fazemos agora, Jamal? Os pombos vão parar de cair feito chuva? Como fazemos para as nuvens de gelo se afastarem, para o ar da cidade melhorar?

Jamal não me respondeu. Apenas soprou um pó roxo sobre as sementes recém-plantadas e árvores surgiram imensas diante de nós. Árvores frutíferas, carregadas, férteis: cajueiros, cacaueiros, pitangueiras, jaboticabeiras. Pouco depois, um pássaro pousava sobre uma delas, cantarolando algo que Jamal se adiantou em traduzir:

– Ele está agradecendo. Mas disse que ainda é pouco. Muito pouco.

Coçando a barba, ele olhava tudo em volta com sua luneta, como se quisesse reinventar o mundo.

– Está vendo, Rock? Vamos ter que trocar todas estas calçadas por gramados e os shoppings por parques. Precisamos plantar árvores por todos os lados para que o solo volte a receber a chuva. Para que a chuva possa penetrar na terra, para que a água chegue aos lençóis freáticos e volte a evaporar novamente ao céu. Para que volte a chover água e não pássaros. Está disposto, Rock?

Dizendo isso, o tradutor de coisas colocou mais um punhado de sementes em minhas mãos e saiu caminhando com sua picareta na mão.

Será que eu devia ir atrás de Jamal? Fiquei ali olhando a semente que brilhava em minha mão ainda um pouco tonto. Havia ainda tanta coisa a ser traduzida nesse mundo.

Flávia Lins e Silva é  escritora, autora dos livros Diário de Pilar em Machu Picchu, Mururu, Detetives do Prédio Azul, entre outros

*Publicado originalmente em Carta Fundamental