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Ilustração cachorro de Odilon Moraes

Ele apareceu de repente. Um domingo de manhã, eu ia dar uma volta de bicicleta e ele estava lá, no portão. A gente se gostou logo de cara. Ele abanou o rabo e eu fiz carinho nele. Depois batizei de Pitoco. Pitoco, porque achei que ele tinha muita cara de Pitoco; e ele veio atrás de mim. Entrei correndo em casa, peguei o Pitoco no colo e fui pra cozinha.


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Minha mãe me olhou com cara feia. “Nem pensar”, ela disse, adivinhando o que eu ia pedir. “Ainda mais um filhote vira-lata, como esse.”

Então prometi que eu ia fazer tudo que minha mãe mandasse. Jurei que ia comer espinafre, que ia arrumar meu quarto e até chorei; aí depois de um tempão ela gritou: “Tá bom, tá bom, moleque! Só que tem uma coisa. Não quero esse bicho dentro de casa. Só lá no quintal. Quem vai cuidar dele é você. Esse cachorro é problema seu”. Pitoco, mãe, o nome dele é Pitoco, expliquei.

“Nome feio pra um cachorro feio”, ela resmungou, e continuou cuidando do almoço. Eu pus o Pitoco no chão e dei um beijo nela. Ela sorriu, sem jeito. E eu entendi que ela gostava de mim e que também tinha gostado um pouco do Pitoco. Ele não era feio. Tinha o pelo curto, amarelo, e uma mancha preta num olho. Ele fez festa pra ela. Ela fingiu que não tava nem ligando e mandou: “Anda, já pro quintal, os dois!”

Arranjei duas tigelas; uma pra água e outra pra comida. Depois do almoço, fui na lojinha. Comprei ração com as moedas do meu cofre. Arrumei uma caixa pro Pitoco dormir.

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No fim de semana, meu pai apareceu. Ele quase não para em casa. Na maior parte do tempo, ficamos só minha mãe e eu. Moramos numa cidadezinha do interior, dessas com uma praça, uma igreja e uma escola. Meu pai sempre diz que precisa viajar muito pra vender os remédios. É esse o trabalho dele. Minha mãe reclama que isso é conversa, e fala que ele gosta de viver assim, andando pra todo canto. Ela diz, que se ele quisesse mesmo, ele poderia morar com a gente. Acho que é por isso que às vezes ela fica triste. Eu também.

Já conversei com meu pai sobre isso. Ele disse que quando eu crescer, eu vou entender. O importante mesmo foi que meu pai gostou do Pitoco e o Pitoco gostou do meu pai. À noite, apagamos as luzes, deitamos no chão quente do quintal e ficamos olhando as estrelas. Meu pai contou uma história.

“Há muito tempo atrás, ele disse, quando os homens ainda viviam nas cavernas e o mundo era todo escuro, os lobos se aproximaram dos humanos. Eles avisavam se algum inimigo estava à espreita e ficavam de guarda à noite. Os lobos mais mansos cruzaram entre si e foram se reproduzindo. Foi assim, do cruzamento entre os lobos mais mansinhos, que surgiram os cães. Por isso, todo cachorro tem, lá no fundo, a alma de um lobo.” O Pitoco também, né, pai? perguntei, e segurei firme na mão dele. “Claro filho, os vira-latas são o tipo de cachorro mais esperto que existe, mas, como os lobos, eles também gostam de liberdade.”

No dia seguinte, meu pai colocou uma rede no portão pro meu lobinho não fugir, me deu dinheiro pra comprar mais ração e foi embora.

No começo, deu tudo certo. Pitoco ficava no quintal olhando a rua, mas só passeava comigo. Até que um dia eu acordei e descobri que ele tinha fugido. Comeu um pedaço da rede e se mandou. Saí procurando por ele. Pitoco, Pitoco, alguém viu meu Pitoco? Ninguém sabia de nada. Minha mãe foi logo avisando: “Já pra escola, não tem cabimento faltar por causa disso”. Passei a manhã toda nervoso, mal e mal consegui prestar atenção na aula. Quando saí, lá estava ele, esperando por mim. Eta, cachorro esperto!

Só que aí não teve mais jeito. Pitoco escapava todo dia. Eu vivia pra cima e pra baixo, correndo atrás dele. Minha mãe resolveu que era melhor ele ir morar no sítio do meu avô.

Vô Laurindo não gostou nada da ideia. Aí eu fiz aquele negócio. Pedi e chorei até ele deixar. Lá o Pitoco ia ter mais espaço, tinha uma cerquinha branca em volta do sítio todo, ia ser bom pra ele.

Mal a gente chegou, o Pitoco matou uma galinha e apareceu todo feliz com a bichinha ensanguentada na boca. Minha mãe gritou: “Esse cachorro não tem jeito mesmo”. Meu avô deu risada. Me chamou de lado, explicou que aquilo era instinto e disse que os cachorros gostam de caçar. Lembrei dos lobos.

Pitoco cresceu rápido. Ficou forte, tão forte, que cavou um buraco e escapou por baixo da cerca do sítio. Procurei pela cidade toda e nada. Fiquei um bom tempo sem ter notícias dele.

Num feriado, minha tia e meu tio foram pescar no rio que passa pela nossa cidade. Estavam lá, sossegados, quando do nada, o Pitoco apareceu. Nem acreditei quando eles chegaram lá em casa, o Pitoco todo feliz, no banco da frente do carro deles. Dei banho nele, abracei ele bem forte e chorei. Sabia que o Pitoco ia embora.

Ele foi, mas ainda aparecia de vez em quando. Abanava o rabo, fazia festa, comia e depois se mandava. Até que sumiu de vez.

Eu fiquei muito triste. Ainda bem que a Manuela ficou minha amiga. Toda tarde a gente vai tomar sorvete, depois fica na praça um tempão, conversando. Eu gosto da Manuela.

Semana passada, meu pai me levou pra conhecer São Paulo. Nunca pensei que existisse uma cidade assim. Muito mais que enorme. Me deu até um pouco de medo, mas eu achei legal.

Minha mãe não quis ir. Preferiu ficar em casa. É o jeito dela. Não sei se quando eu crescer, eu vou ser como ela. Talvez eu fique por aqui mesmo, na nossa cidadezinha, com a igreja e a praça, e encontre todos os dias as mesmas pessoas. Talvez eu fique mais parecido com meu pai, e aí, acho que essa cidade vai ficar pequena pra mim, e vou, como ele e como Pitoco, ganhar o mundo. Ainda não decidi; como meu pai sempre diz, isso eu só vou entender quando ficar mais velho.