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Com um alcance comercial muito menor do que os filmes de animação para crianças produzidos pelos grandes estúdios norte-americanos nas últimas décadas, Contos da Noite representa outro universo, de sentido artístico superior: o das animações autorais que furam o bloqueio das superproduções hollywoodianas e conseguem circular por diversos países, ainda que à custa de grande esforço.


Basta lembrar que o quinto longa-metragem do diretor e roteirista Michel Ocelot chega aos cinemas do Brasil, em lançamento restrito, dois anos depois de estrear em seu país de origem, a França. Antes tarde do que nunca: crianças e adultos regularmente submetidos à “dieta McDonald’s” do filme de animação só têm a ganhar com a descoberta desse mundo fascinante em que tramas baseadas em mitos e lendas são levadas à tela por meio de técnicas artesanais.

Hoje com 70 anos, Ocelot retoma, em Contos da Noite, a atmosfera lúdica de sonho presente em seus quatro longas anteriores – Kirikou e a Feiticeira (1998), Príncipes e Princesas (2000), Kirikou – Os Animais Selvagens (2005) e As Aventuras de Azur e Asmar (2006). Na origem do projeto está um curta-metragem de animação com o mesmo nome, produzido para a tevê em 1992. A trama fala a respeito de como histórias são criadas e narradas pelo próprio cinema, a partir de uma circunstância de apelo sedutor para o público infantil (e também para o adulto): em uma velha sala de cinema abandonada, três personagens – um menino, uma menina e um idoso – se reúnem para inventar contos fantásticos que os levam, como os filmes costumam fazer conosco, a dimensões muito distantes da realidade.

É possível que a simplicidade dos traços (com personagens baseados em sombras) e dos movimentos cause algum estranhamento a espectadores habituados ao frenesi da animação industrial contemporânea. Recomenda-se dedicar a Contos da Noite um olhar mais contemplativo, deixando a imaginação fluir enquanto jorram as histórias da tela.