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Ilustração Laura Beatriz

Minha carta ao Professor consistirá em fazer-lhe uma proposta de um tema a ser trabalhado na sala de aula.


Que tal um tema que os alunos apreciam muito?

Que tal um tema que, no mundo contemporâneo, tem ocupado imenso espaço na televisão, nas revistas, nos jornais e na internet?

Que tal um tema que se encontra sob variadas formas em todas as culturas e em todas as épocas?

Que tal um tema que se associa a variadas formas de arte?

Que tal um tema que explora técnicas originais de comunicação?

Que tal um tema que levanta questões éticas, pois permite tanto falar de prazer e de alegria, quanto de dor e de tristeza?

Que tal um tema que levanta questões morais, pois coloca incessantemente a questão do respeito pelo outro? Mas qual será esse tema?

É o tema do riso e do humor. Vamos a argumentos que me levam a propô-lo como objeto de estudo e reflexão em sala de aula.

No quesito motivação, o tema do riso e do humor tem apelo natural, visto o importante lugar que ocupa na vida dos alunos. Mas esse primeiro argumento ainda é fraco: não cabe à educação se limitar a referendar interesses espontâneos, cabe-lhe, sobretudo, despertar novos interesses ou ampliar os que já existem. Ora, esse pode ser o caso para o tema proposto.

Somos, nos dias de hoje, incessantemente convidados a rir, notadamente assistindo a inúmeros programas de humor: não deveria esse frenesi de riso ser objeto de reflexão? Será que essa euforia perpétua não esconde um tédio existencial?

Em todas as épocas e em todas as culturas riem-se e criam-se obras de humor. Não seria interessante os alunos saberem do que riem outras pessoas de outros lugares e de outros tempos? Não seria interessante conhecerem diversas formas de humor, e isso de Aristófanes até A Porta dos Fundos, passando por Molière e Martins Pena?

As boas obras de humor empregam técnicas sofisticadas do ponto de vista da linguagem e da lógica. Não seria interessante, para além de conhecerem tais obras, os alunos estudarem essas técnicas para, notadamente, trabalharem a gramática e os meandros do raciocínio?

Escreveu o poeta Charles Baudelaire que o riso e as lágrimas “são igualmente filhos do aflito”, e Charles Chaplin disse: “Que triste profissão a de ser engraçado!” Não será relevante os alunos pensarem a vida refletindo sobre uma atividade humana que alia dois opostos: alegria e tristeza?

Disse Lorenz: “O riso pode se transformar numa arma cruel quando ele bate injustamente um ser humano indefeso”. Não seria interessante tratar da moral, do respeito pelos outros por intermédio da reflexão sobre esse comportamento que por vezes junta as pessoas e por vezes as separa (lembremos que o riso costuma acompanhar quase todas as formas de bullying)?

Se o professor concordar minimamente comigo, não será necessário criar uma nova disciplina, pois se pode tratar do riso e do humor em praticamente todas as que 
já existem.

*Educador e psicólogo 
especializado em desenvolvimento moral. É professor do Instituto de Psicologia da USP

*Publicado originalmente em Carta na Escola