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Meu contato com a obra de Cecília Meireles está invariavelmente ligado a momentos de descobertas e travessias.


A primeira vez se deu em 1998, quando de minha iniciação como leitor de literatura, no colégio. Já que esta página fala de professor para professor, e como Cecília foi nossa confreira, não posso omitir o nome daquela que me aproximou dos versos cecilianos: Maria Célia, minha mestra e estrela-guia, cuja apresentação à minha turma ainda ressoa nitidamente: “Não vim dar aula apenas de História da Literatura. Meu trabalho não vai adiantar de nada se eu não fizer com que vocês sintam a carga especial que a literatura tem”.

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Com esse propósito, ela inseriu no programa destinado às Letras do século XIX poetas e poemas do século XX, como introdução às aulas. Uma das introduções trazia versos algo misteriosos: Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta. Mais do que versos, era um mundo novo o que a professora trazia aos olhos e ao espírito. E sem que eu pudesse imaginar, aquela descoberta me levaria a outras, sempre marcadas pela presença de mestres especiais.

De 1998 a 2001 passaram-se apenas três anos, mas quantas mudanças na vida de um jovem com 20 de idade. Aluno de curso pré-vestibular no raiar do novo milênio, só então tive novo contato com Cecília, quando li a epígrafe de um trabalho acadêmico de meu professor de Literatura, Leandro Garcia Rodrigues. Naquele contexto eu havia tomado a decisão de fazer Letras, e os versos que li coroavam a escolha com a intensidade da alta poesia:

O vento do meu espírito
soprou sobre a vida.
E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que és eterno…

Eu não sabia que naquele 2001 se completava o centenário da poeta, brindado pela edição da Poesia Completa, organizada por Antonio Carlos Secchin. Eu também ignorava que no ano seguinte cursaria Letras na UFRJ, onde seria aluno do próprio Secchin, mestre entre os mestres, por meio do qual conheci a obra insuperável que é o Romanceiro da Inconfidência. Foi uma época de duras experiências, e a poesia chamava à revolta e à esperança, pelo que uma pessoa obstinadamente segue.

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Em 2014 tornei-me professor da universidade pública, e neste ano escrevi para a imprensa sobre a reedição da obra de Cecília Meireles. Apesar de tanta busca pelo saber, ainda não sei em que espelho está perdida a minha face, mas a poesia diz ser possível e necessário reinventá-la e redescobri-la. Por isso eu canto, porque mesmo que com lacunas e a duração de um instante, a vida está completa.

*Publicado originalmente em Carta na Escola