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Laura Beatriz

Aconteceu o que temíamos!


Estamos às voltas com uma geração que vive com o nariz grudado em telas. E telinhas.

A verdade, pressinto eu, é que estamos no epicentro de uma mudança cultural. E, desse ponto, ainda não dá para enxergarmos nem até onde vai a coisa nem em que profundidade vai mudar a nossa vida – como a conhecemos.

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Tecnologia, para mim, foi, na idade em que estão meus netos hoje, e mesmo muitos adolescentes com quem converso em visitas a escolas, coisa dos Jetsons, dos filmes de James Bond (especialmente os automóveis mirabolantes do 007), da série Jornada nas Estrelas, histórias em quadrinhos etc. Ainda fazíamos coisas em casa. Ainda existia o fazer manualmente.

Isso é passado. E a tecnologia entrou no cotidiano. No nosso bolso (celulares etc.). Tornou-se parte do cenário. Nem carteira de identidade, nem de motorista, nem declaração de imposto de renda, nem conta no banco… nada disso mais se pode fazer sem tecnologia. Alguma tecnologia.

Para variar, creio que o mais sensato, em casa ou na escola, seja uma atitude meio-termo em relação ao fenômeno. Não podemos ceder ao consumismo e à dependência; mas também não podemos ser nostálgicos, saudosistas, como se ainda tivesse gente no mundo sentindo sinceramente falta de quando a gente não tinha nem computadores de colo nem celulares espertos.

Contudo, é bom dizer para a garotada que houve um tempo em que a gente não tinha essas coisas. E sobrevivemos. Aqui estamos. Que isso foi uma mudança recente em nossas vidas e que nem sempre foi assim. É bom pensar com eles que o namoro pode ter mudado na era Facebook; mas que o amor, aquela coisa lá dentro da gente, talvez nem tanto. Que há hábitos que somem, desaparecem, assim como algumas estrelas que entram em colapso; em contrapartida, há coisas intrínsecas, profundamente humanas que, curiosamente, parecem perdurar inalteráveis.

E aí está a Literatura para comprovar isso, com histórias de amor, ciúme, raiva, generosidade, que eram boas há centenas ou mesmo milhares de anos, e que continuam boas. Da mesma forma como os personagens que incorporaram o ser humano de modo tão extraordinário… e que são extraordinários até hoje. Clássicos! Imortais.

Quer dizer, tentar transformar-se num Quixote contra as telas e telinhas tem um custo alto. Mas sempre se pode aproveitar o ensejo para uma conversa, uma palinha… A garotada adora essas evocações pré-históricas. E é uma ótima maneira de se refletir sobre o mistério da passagem do tempo, de onde viemos, para onde vamos e quem somos – ou pelo menos o que há de passageiro e o que há de permanente no que somos.

Vale a pena. É um bom gancho para um belo papo entre pai e filho, avô e neto, professor e alunos.

*Publicado originalmente em Carta na Escola