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Quem corre é cotia
Com uma Educação voltada para o mercado de trabalho, adultos acabam desconhecendo importância da observação

O esforço de ver com olhos de criança pode nos devolver preciosidades. Suspender pressupostos, mesmo que temporariamente, torna possível encarar uma questão como algo novo, um convite para a experiência. Nós, adultos ocidentais, educados para um mercado de trabalho e para os valores de uma cultura capitalista e industrial, não temos dimensão do valor da observação em um processo de aprendizagem, especialmente no caso das crianças menores.


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Intervimos incessantemente porque cremos estar ensinando algo de “importante” para seus futuros. Será verdade? Em busca de ensinar as tais “importâncias”, nos afastamos da joia rara produzida pela atitude de testemunhar.

Foi trabalhando como professor de Educação Infantil em uma escola – cuja fonte pedagógica era a arte – que pude começar a vivenciar um certo distanciamento da intervenção constante. Semanalmente, em parceria com outra educadora e apoiado pelo trabalho de nossa equipe, preparávamos um ambiente para crianças visitarem a atividade da costura.

Escolhíamos materiais e espaço de forma a criar um retorno ao artesanal, à qualidade de conexão. O texto a seguir é inspirado nessa experiência:

Costura é uma senhora. Anciã, lúcida, atenciosa. Eu a conheci outro dia. Minha amiga me mostrou, vi: ela ali, na varanda, entoando encantaria.

“Se achegue, boa prosa sempre interessa.”

Era isso. Nas primeiras palavras, já nascia conversa. Foi horas a fio. Um novelo infinito, eu ouvindo aconchegado no sofá, mergulhado em almofadas de paciência. No rio da experiência.

Veio a chance então, e pedi que me falasse de seu avô. Pressenti a importância. Se sabia: os dois tiveram profunda convivência. Ela me levou ao começo: infância. Desfilaram, aos poucos, tantas lições, que ela coloria de modéstia: “São simples lembranças”.

Desfrutei. E do que guardo, repasso, como posso, um pedaço.

Era ainda a era de ser criança; mas Costura por vezes já tocava a pressa. E queria acabar tudo em um dia. Então vovô, delicado, dizia “Menina, pra que afobar… Quem corre é cotia”.
Ela ouvia.

Logo depois voltava a ansiedade. E Costura queria que tudo acabasse, que tudo já fosse, uma hora era o máximo, que não demorasse. Seu avô lá lhe falava: “Menina, e a calma? Se hoje fosse amanhã, ontem não precisava”.

Ela escutava.

De uma feita estava mais atacada, e queria que nada, nada ultrapassasse um minuto. E seu avô, matuto: “Menina, veja: semente espera muito, pra um dia dar o fruto”.

E Costura recebia atenta. Depois repensava tudo.

Pois, depois, Costura crescendo, tanto mais se sucedendo. E, entre outros, seu avô assim lhe ensinando parte por sensata parte, ela guardando e sabendo. Eu ouvindo esses causos e em mim o resgate acontecendo.

Senti o tamanho da constelação que é o conhecimento antigo – esse que viaja pela fala da boca para o ouvido e, daí, assenta no coração. Pois assim se ensina a tradição. O avô de Costura chama-se Tempo. Ela, entre outras netas são grandes portadoras desses exemplos.

Sorte a minha: o encontro. Presente, alumbramento.

Sigo nas pistas disso que nos liga, que se transmite entrelinhas. Isso que nos vincula, aglutina. Que nos torna texto.

Nós num mesmo chão, sob um mesmo teto: o templo. Um casarão. Morada de Tempo e toda a sua linhagem – inclusive a mãe de Costura, dona Educação.

Inda hoje passei naquela varanda. Uma visita sempre agrada. Pela boa prosa ela permanece interessada.

*Publicado originalmente em Carta na Escola