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Laura Beatriz

Os professores costumavam dizer que ela era do tipo “não fede, nem cheira”. Não chamava a atenção, nunca se destacava, seja pela disciplina, seja pela participação ou amizades. Era uma aluna invisível.


Até o dia em que na aula de História ela se levantou, chacoalhou a cabeça do colega segurando pelos cabelos, jogou ele no chão e soltou um sonoro “Chega!!!”

Prazer: Carolina.

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Perguntei ao Gustavo se ele estava bem. Com cara de dor, mas sem deixar o orgulho de lado disse que sim. Pedi a Carolina que me acompanhasse fora da sala.

– Carol, o que foi aquilo? Por que você bateu no colega?

– (…)

– Carol, olha pra mim. Por que você fez aquilo?

– (…)

– Ok. Você não quer falar comigo é seu direito, mas vou ter de levar você pra direção.

– Eles sempre me xingam, sempre dizem que eu sou gorda, que meu cabelo é ruim, que tenho nariz de batata, que sou feia, barriguda. Eu nunca, nunca faço nada, nada. Não é justo.

Realmente, não era.

Conversado, advertido e resolvido o problema com Carol, passei a observá-la melhor na sala. Sua relação com os colegas, nas atividades. E, principalmente, no dia que passei nas salas de aula perguntando quem gostaria de fazer parte do sarau da escola.

– Sarau?

Breve explicação da atividade, alguns poucos braços levantados, entre eles, o de Carol.

Bingo.

No primeiro encontro, adolescentes em roda, livros espalhados no chão. Pego um deles, faço uma performance, improvisação. Aplausos. A molecada curte. Carolina espalha um sorriso no rosto. O primeiro do ano letivo.

Os alunos pegam os livros, folheiam. Escolhem um texto. O objetivo é decorá-lo até a próxima semana. Para apresentar à galera, durante o sarau.

Nossa turma tinha 20 alunos. Todos muito participativos, interessados. Apesar da dificuldade da leitura, apesar da timidez. Todos participavam das atividades com vontade, entusiasmo. Esforço, colaboração.

Carolina era um caso à parte.

Desde a primeira vez que recitou, parecia que havia acabado de estourar – sim, estourar – o casulo, e havia alçado voo como borboleta. Com grandes e brilhantes asas. Que por onde passava a todos encantava, chamava a atenção. O tempo ficava suspenso, os alunos prendiam a respiração. Carolina era poeta. Atriz. Só não sabia disso. Até então.

Fizemos várias apresentações ao longo do ano. Saraus na escola, bibliotecas do bairro, rede Sesc.

A turma do sarau, que na primeira formação teve 43 inscritos, no ano seguinte saltou para 136. Era um sucesso, todos queriam participar.

Mas as vagas eram limitadas.

Quando entrei na sala da Carol, 25 alunos se inscreveram. Incluindo ela. Com um semblante sério, preocupada. Antes de sair, ela levantou o braço, pediu autorização para o professor para conversar comigo fora da sala.

– Oi, Carol.

– Professor, queria te pedir algo.

– Pode falar.

– Não me tira do sarau.

– Você sabe que tem bastante gente inscrita este ano, né? A gente tem de dar oportunidade pra todos.

– Eu sei, mas… Eu nunca fui ninguém nesta escola. As pessoas só me humilhavam, só me xingavam. Antes eu não era nada. Nada. Agora eu sou poeta. Eu sou poeta, professor. Não me tira isso.

Jamais, Carolina.

Rodrigo Ciríaco é educador na rede pública, em São Paulo, e escritor. Autor dos livros Te Pego lá Fora (Editora DSOP, 2014), 100 Mágoas (Edições Um por Todos, 2011) e Vendo Pó…esia (Edições Um por Todos, 2014).