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laura beatriz

Minha vó lia a fumaça do cachimbo dando voltas no ar. Para cá e para lá. No balanço da cadeira. Minha mãe lia as folhas da bananeira. Entendia o ponto do doce. A hora de parar de mexer o caldo da panela. 
Meu pai lia em silêncio a passagem do tempo. Na reza do pensamento. Era o seu trabalho. Adivinhar de onde tirar dinheiro para sustentar a família. Dizia olhando para o alto: hoje vai chover. Pelo som do trovão dava para ler o futuro da plantação.


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Minha tia acertava se era, de fato, doença a nossa dor de cabeça. Para qualquer coceira, enfado, ela medicinava, encontrava a cura. Era doutora honoris causa. A linda criatura.

Meu padrinho e minha madrinha, sertanejos, ensinavam a mim e a meus oito irmãos qual era cada canto de passarinho. Pio de silêncio. As folhas que ainda folhavam na terra seca. Escutem os segredos verdes, escondidos, lá no fundo do chão.

E os velhos da praça. Carcaças ao sol. Lendo, lentos, o correr do tempo. E os feirantes e as frutas. E os cereais e as carnes brutas. Cruas. Tudo se aproveitava.

Cada osso que a faca bruta cortava atirava-se na sopa. No caldo, enriquecido. Era o alimento que nos mantinha vivos. Todos os bichos mortos. Melhor aula não havia. De meio ambiente. Ecossistema. Biologia.

E os emboladores. Professores na métrica. Mestres. Na emoção da poesia. Aquela festa que o improvisador fazia com o pó. Do humilde verso. Era só receber o mote, o tema mais concreto, e a rima vinha. Cheia de ritmo, de som. Melhor do que em qualquer escola. Fora da academia, a universidade era ali, na feira em que se aprendia e apreendia o amor ao livro. Livre. Longe das estantes. Os autores, no alto, triunfantes. Livretos. De nossos pobres imortais. Cordéis pendurados em cordão. Qualquer obra. Ao alcance da palma, calejada, da minha, da sua, da nossa mão.

Minha palavra vem daí, eu sempre digo. Desta geografia nasceu e nasce a minha poética construção. Desse povo a linha, ladainha, dos meus contos. Sinto a minha alma, sempiternamente, dessa inspiração, sobreviver.
 Por exemplo, a saber: do primeiro romance que eu recentemente escrevi, nele, em toda parte, vejo o rosto dos meus queridos, antigos amigos, parentes distantes.

Dos sonhos que eu ergui, em minha arte, o sangue de minha gente está escrito. Para quem quiser ler, como eles leram, a vida. Esse ensinamento raro e preciso. O mundo que, para onde eu for, carrego comigo.

*Publicado originalmente em Carta na Escola