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Carla Caruso

Quando fui convidada, há alguns anos, para encontros com crianças no Centro Educacional Unificado (CEU), pela Secretaria de Cultura do Município de São Paulo, um fato me fez pensar muito na questão da presença de personagens negros nas narrativas infantojuvenis.


Levei na bolsa muitos de meus livros e um deles, chamado Kamazu, um reconto de uma história angolana, provocou uma reação entre as crianças que participavam do encontro. No momento em que começo a ler a história de Kamazu, mostrando as ilustrações, na qual o personagem principal é negro e está representado na capa, houve uma confusão entre um menino negro e alguns garotos brancos.

Ao perguntar o que acontecia, o menino negro disse: “Os meninos estão dizendo que o Kamazu é um ‘nego feio’ e que eu sou feio”. Logo, percebi que o fato de a história ser de um garoto negro, que protagonizava o conto, havia desencadeado um clima de conflito. No momento, tratei diretamente a questão do preconceito e percebi que a agressão ao menino negro foi atenuada. Entretanto, a história causava um estranhamento, por mais que estivessem presentes, na sala, muitas crianças negras, o fato parecia novo.

Kamazu é um menino que tem uma condição de escravo em Angola, e ele, por meio de seu trabalho, inteligência e ligação com sonhos, torna-se livre e encontra  seu lugar no mundo. É uma história tradicional, do ponto de vista do percurso de um herói, e também está vinculada à questão da escravidão na África. Gostaria de ressaltar que dentro da minha produção tenho outros livros em que há crianças negras sem essa ligação com a temática do preconceito, escravismo etc.

O encontro no CEU aconteceu em 2005, de lá para cá, acompanho a produção de livros infantojuvenis, e constato, ainda, a presença acanhada de personagens negros que protagonizem histórias, sejam crianças, sejam adultos. Essa questão está sempre em pauta nas minhas conversas com escritores e ilustradores e, principalmente, cada vez  mais no meu fazer.

A literatura infantojuvenil, com suas características estéticas que se configuram principalmente pela relação entre texto, ilustração e projeto gráfico, cria os mais variados significados, provoca emoções, leva ao devaneio, apresenta conceitos, lança questões filosóficas, culturais e sociais. Dessa maneira, sua importância na formação de leitores sensíveis e críticos é fundamental. Como é possível ainda existir uma produção que mantém uma porcentagem alta de livros na qual não há a presença de personagens negros, quando a população brasileira tem cerca de 50% de negros?

A literatura é uma fonte para o imaginário. Inclusive para o imaginário social.

*Publicado originalmente em Carta na Escola