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Lembro como se fosse hoje.


Fui contratada na escola para substituir um professor que saiu por uma oportunidade melhor. Ele era amado, idolatrado pelas meninas do 1º C.

Eu não tinha muita experiência, trabalhava como professora há três anos e ainda não havia dado aulas para o Colegial (o Ensino Médio de hoje).

Foi a minha terceira aula do primeiro dia na escola. A última antes do recreio.

Entrei sorrindo e um grupo de quatro ou cinco meninas que estavam sentadas na frente levantou e foi sentar no fundo da sala. Fizeram uma rodinha, duas ficaram de costas para mim. O sinal foi muito claro. Fiquei arrasada. Tentei agir naturalmente e iniciar a aula preparada.

Durante um tempo elas continuaram a se comportar dessa forma. Eu tentava me aproximar sem que elas percebessem, para ouvir o assunto sobre o qual conversavam. Virou um desafio. Queria trazê-las de volta para a aula.

Eu falava da Pré-História, do Renascimento, da Arte Contemporânea, do Andy Warhol, fazia piadas, contava fatos trágicos e engraçados da minha vida e… nada!

Na sala dos professores, questionei os colegas que repetiam que elas amavam o antigo professor e que jamais me aceitariam. Sorri bem amarelo, agradecendo o apoio dos novos amigos.

Na sétima ou oitava vez que entrei lá, levei um CD e uma música de um cantor que eu ainda não conhecia (e fora um dos citados nos inúmeros bate-papos que ouvi disfarçadamente).

A letra da canção falava sobre um relacionamento, mas adaptei o significado para a aula. Na primeira audição, fiquei quieta, deixei que eles analisassem livremente a letra. Na segunda, pedi opiniões e os questionei sobre a relação da letra da música com a Arte. Só depois da terceira vez que a ouvimos é que falei: fiz uma analogia entre o fogo e o conhecimento.  Tanto os professores quanto os alunos precisavam fornecer a lenha para que a fogueira vingasse.

Escrevo e me arrepio como se visse a cena nesse momento: elas foram levantando, uma de cada vez, e carregando suas carteiras para a frente da sala de novo. Quietas, comovidas e interessadas. Minhas pernas tremeram e eu tive taquicardia de tanta comoção.

Nós nos apaixonamos naquele momento e foram minhas melhores alunas até o 3º colegial, e duas delas se formaram em Educação Artística.

Emoção e saudade.

Muito obrigada, Seu Zeca Baleiro.

Lucimar Mutarelli é professora de artes e escritora, autora de Entre o trem e a plataforma (Ed. Prumo).

*Publicado originalmente em Carta na Escola