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Como provar que ler é o que se faz a cada instante?


Bastaria, em princípio, a prática de um gênero pouco cultivado nas escolas e fora dela: o relatório. Registrar o que se lê a cada instante.

De fato, ao se registrar cada ato praticado desde que acordamos, ou apenas durante um período do dia, estaríamos registrando também tudo o que “lemos” nesse período.

Logo ao abrirmos os olhos, vemos – ou lemos – a página do quarto: quais os móveis, a disposição deles, as cores. Se quisermos estender essa experiência, no sentido de uma leitura crítica, podemos até fazer algumas considerações a respeito dessas primeiras leituras diárias, ou de nossas reações diante delas: o prazer que nos causa o sabor de um café bem quente, ou a indignação que nos invade diante de mais um recente escândalo de corrupção de políticos noticiado nas páginas dos jornais do dia.

Ao programarmos o que fazer nas próximas horas, mais uma etapa da leitura: ler o que a memória registrou e nos legou como “coisas a fazer”, e outras tantas, que criamos especialmente para essas próximas horas, próximas semanas, próximos meses ou anos… Nesse repertório entram os deveres – estudo, trabalho. E entram as diversões – encontro com amigos, reuniões familiares, festas.

E há as demais leituras, tão necessárias e tão pautadas na rotina, que, por vezes, nem nos damos conta de que elas existem: ler recados no celular e ler os sinais de trânsito, ler as expressões de tristeza ou de alegria de colegas e amigos, ler as horas e constatar que estamos em atraso ou adiantados para um compromisso.

E há leituras de sinais, apenas sinais, como certas intuições a respeito do que poderá acontecer e ainda não aconteceu. E há leituras de textos abafados nos meandros do inconsciente que podem nos aparecer por pistas, ou nem isso, e então permanecem assim, desconhecidos de nós mesmos, sem emergir à flor da nossa consciência.

Nessa linha de ação de leitor, fico pensando: o que nos escapa? O que não seria ato de leitura ao longo do dia?

Enquanto não se faz esse tipo de relatório, o do que não é, convém ler Felicidade Clandestina publicado em um livro de contos que leva esse mesmo título. É esse o melhor conto sobre o assunto que já li até hoje. A autora, Clarice Lispector, nos relata uma história de… leitura.

Mas a personagem, a própria Clarice menina, lê o quê? E em quais circunstâncias? Não vou contar. Afinal, ler – e é essa a última consideração que faço – é também um ato de construção da própria intimidade, e sob esse aspecto, é também um valioso segredo, que merece ser preservado.

Se você ainda não leu esse conto e não teve essa sua “felicidade clandestina”, ainda está em tempo. Há sempre tempo para se ter esse prazer de… o conto dirá o quê.

Ler é viver.

*Publicado originalmente em Carta na Escola