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Etesp

Tocava o despertador, minha mãe vinha me acordar. Todo dia eu levantava às 4h30 da manhã, tomava banho, vestia o uniforme, arrumava a mala, guardava a marmita, com pressa engolia um pão com manteiga e um copo de café com leite e… Corria!


Às 5h15, pontualmente, tomava o primeiro ônibus da linha 8594, Cid. D’Abril – Praça Ramos de Azevedo. Saía cheio, mas não lotado. O trajeto era cansativo. Com sorte, durava uma hora e meia de ônibus e mais 30 minutos de metrô. Partia da zona noroeste e descia no Centro de São Paulo, na degradada Avenida São João.

De lá, em disparada, partia para a Estação Marechal Deodoro, Linha Vermelha. Tomava o trem, fazia baldeação na caótica Sé e seguia na Tiradentes, Linha Azul, correndo para não perder a primeira aula.

Começava então uma jornada de quase nove horas de estudo na Escola Técnica Estadual de São Paulo (Etesp), onde cursava Processamento de Dados integrado ao Ensino Médio regular. E a escola valia o sacrifício.

Localizada em um conjunto de prédios históricos do Bom Retiro que por décadas sediou a Escola Politécnica de São Paulo, a Etesp fica próxima ao Parque da Luz. Nos intervalos era possível passear na Pinacoteca, andar pelo bairro ou ouvir conselhos das freiras do Museu de Arte Sacra.

A turma era ótima. O alunado tinha as mais diferentes origens sociais, vindo dos mais diversos cantos da Grande São Paulo e do entorno. Tanto quanto com os professores, que eram muito bons, nós – os estudantes – aprendíamos uns com os outros.  E, mesmo diante de um concorrido vestibulinho, a Etesp comportava todo tipo de diversidade.

Embora a infraestrutura fosse muito aquém de nossas exigências, a escola tinha laboratórios de informática e de ciências, sala de vídeo e uma pequena quadra coberta, além de acordos para uso de espaços esportivos da região. Para completar, embora não fosse fácil ou pacífico, a gestão da Etesp era participativa, como determinam as leis educacionais. Alunos e familiares eram convidados a debater tudo: currículo, orçamento, eventos comunitários, política…

Os dias eram longos e eu nunca chegava antes das 20 horas. Voltar para casa era sempre mais demorado do que ir para a escola. Fazia a lição de casa no próprio ônibus e cochilava no final do trajeto.

Minha Etesp, com aqueles 720 alunos e aquelas dezenas de professores, não existe mais: em educação, cada turma é diferente da outra. Meu colegial, cursado entre 1993 e 1995, foi inesquecível e inspirador. Não como um modelo a ser meramente seguido, mas como uma referência prática e possível de educação pública, democrática, gratuita e de qualidade.

*Publicado originalmente em Carta na Escola