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Renato Moriconi
A gangorra não era um lugar somente de recreação, mas de meditação

Na segunda metade dos anos 80, estudei em uma Escola Municipal de Ensino Infantil (Emei) chamada Gabriel Prestes, na região central da cidade de São Paulo. Um lugar muito agradável, com arquitetura aconchegante e cheio de árvores.
Naquele terreno havia, além das casas que serviam de sala de aula, dois pátios para brincar e se exercitar: o pátio claro e o pátio escuro. Admito que não era muito fã de exercícios. Como também não gostava muito de competir. Talvez porque perdesse muito. Por isso, as lembranças de jogos da época foram quase todas enviadas para a pasta da lixeira em minha memória. Eu era uma espécie de Ferdinando, o touro que prefere o sossego à glória do vencedor.


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O pátio escuro recebeu esse apelido por ser todo coberto pelas sombras das árvores. Lembro muito bem das belas jaqueiras que lá havia, de tempos em tempos nos fornecendo suas frutas e adoçando o lanche da tarde. Como gosto muito de comer, carrego na memória várias lembranças de refeições escolares dessa época.

Esse era um pátio mais roots, literalmente, que nos convidava a brincar com raízes e galhos de árvores em vez dos brinquedos tradicionais, como gangorra, balanço e escorregador. Esses ficavam no segundo pátio, apelidado de claro. Gostava bastante dele também. Ambos eram complementares, formando um Yin/Yang versão Reggio Emilia, permitindo a nós diferentes relações com o espaço.

A importância da pedagogia do ambiente – se é que posso chamar assim – ficou muito evidente para mim quando ingressei no primeiro ano do que na minha época era chamado de Primário. Consegui vaga em uma escola estadual que tinha – e ainda tem – a arquitetura similar à de um presídio: um quadrado de concreto, com um pátio central, sem nenhum verde, nem visão para o exterior, que daria um ótimo estudo de caso para Michel Foucault.

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Ainda na Emei, devo dizer que o lugar mais especial para mim era a gangorra, brinquedo que ficava perto do portão de saída, que eu via como um portal mágico, um retorno para o meu mundo. Não que eu não gostasse da escola, mas tal qual Dorothy de O Mágico de Oz, eu também acreditava não existir lugar melhor que o lar.

A gangorra não era um lugar somente de recreação, mas de meditação. Aproveitava os momentos em que meus colegas estavam em outros brinquedos para nela deitar. Gostava de brincar com meus amigos, mas havia horas em que queria ficar sozinho. Deitado, prestava mais atenção no céu, no vento, nas árvores, e o mais importante, no prédio logo em frente, aonde minha mãe trabalhava, heroína que vinha me resgatar e me levar para casa, todos os dias, lá pelas 6 da tarde, antes que o pátio claro ficasse escuro.