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Ilustração de Laura Beatriz

Desde quando comecei a atuar nos textos teatrais os quais escrevi, sempre ao abrir das cortinas, eu percebia a respiração do público ávido por acontecimentos significativos no palco.


É como se fosse um acordo tácito: Você me tirou de casa… eu vim até o teatro… agora diga-me algo que valha a pena… prove-me que uma existência fictícia pode ser tão impactante quanto uma existência verdadeira. Ou seja, a escrita me impôs uma responsabilidade, somente comparável à vivida por você, professor.

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Sempre considerei a imagem daquela pessoa na frente de alunos em estado de expectação, bastante teatral. E os “segundos iniciais” de um espetáculo teatral, talvez sejam cheios da mesma atmosfera dos “segundos iniciais” de uma aula. O momento da troca de conhecimentos em uma sala de aula, mesmo que distante da configuração palco/plateia, em muito se assemelha com as criações mútuas de significados que as artes cênicas podem provocar.

Quando o espetáculo teatral acontece, arrisco dizer que aquilo que desejamos comunicar para a plateia nunca é dito diretamente pelo ator. A síntese almejada da engrenagem cênica acontece em outro plano. Como se o verdadeiro sentido dos acontecimentos do drama não pudessem ser pronunciados nas cenas, mas antes transmitidos através de imagens sugeridas. Respirações ritmadas. Olhares profundos!

Essa articulação de expressividade é que me vem à memória quando lembro dos meus professores (professor Carneiro, professor Miguel, professora Cristina, professor Iran… e tantos outros que habitaram os “palcos” das salas de aula nos quais eu fui público ao longo de diversos anos no meu antigo ginásio). Havia algo neles que não era simplesmente dito… mas que ainda assim comunicava bastante.

As palavras selecionadas por vocês (professores) muitas vezes escondem aquilo que não deve ser dito, mas descoberto da mesma forma em que a plateia tenta descobrir os pensamentos de um personagem no palco. E essa interação (aluno/professor ou plateia/personagem) torna-se cada vez mais rica quando o estímulo da busca do conhecimento (ou do desconhecido) se torna mais importante do que a matéria omu o assunto a ser dado. É esse acordo, que classifiquei de tácito, que (talvez) vocês também experimentem… e muito provavelmente percebam  seus alunos com aqueles olhos de expectação que, assim como a plateia de teatro, também perguntam (sem palavras):  Prove-me que minha existência de aluno pode ser tão impactante quanto a sua existência de ­professor!

* Aldri Anunciação é ator e autor de Namíbia, Não, Prêmio Jabuti 2013 na categoria juvenil