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Lúcia Hiratsuka

Quer aprender a ler? – perguntou minha mãe.


Rapidinho disse que sim. E meu avô ficou encarregado de me dar aulas todos os dias, em japonês. Logo eu estava me aventurando sozinha dentro dos livros que tinha em casa.

Completei 7 anos. Tempo de ir para uma escola de verdade, aprender a ler e escrever em português. Com uma professora de verdade. Porque avô era avô, mesmo que virasse professor por uma hora.

No primeiro dia de escola, eu carregava um bornal com caderno, lápis e borracha. Também ganhei uma marmita nova, redonda e pequena, de alumínio. Linda! Minha mãe, boa de costura, fez um porta-marmita de tecido xadrez vermelho, completando o charme.

A escola de verdade era longe. Não tão longe quanto a cidade. Mas tinha de caminhar uma hora passando por cafezais, canaviais, eucaliptos perfumados… Depois de muito chão de terra, depois da ponte, lá estava a Escola Rural Mundo Novo. Eu ainda nem falava o português, mas sabia que o mundo era grande e ia conhecer mais um tantinho desse mundo.

A escola, de madeira, só tinha uma sala ampla com fileiras de carteiras. Uma porta e várias janelas. Gostei das janelas grandes.

A professora veio da cidade. Quando eu a vi descer do carro, pensei… Que chique! Meu pai só comprava perua rural, eu achava que o chique era ter um Fusca. E a professora chegou num Fusca vermelho. Coisa de nunca mais esquecer. Ela trouxe um leve cheiro da cidade. Era do laquê que ajeitava o penteado, ou seria do pó de arroz?

Naquele primeiro dia de escola, a professora nos ensinou a fazer um monte de pequenos riscos enfileirados. Ela disse que eram chuvas, um exercício para aprender a segurar o lápis. Achei fácil demais, porque já gostava de desenhar e tinha aulas de japonês. Mas fiz as chuvas no maior esforço de capricho. Porque a professora de verdade estava pedindo. Chuva de pé e chuva deitada.

Naquele primeiro dia de escola, conheci meus colegas. Todos filhos da terra, como eu. Naquele primeiro dia de escola, eu brinquei no recreio, comi comida da marmita, conheci minha primeira professora.

E na volta eu guardava dentro do bornal um monte de chuvas.

*Publicado originalmente em Carta na Escola