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Ilustração de Laura Beatriz

Muito cedo aprendi, com Monteiro Lobato, a ser uma ávida leitora. A partir daí, a sucessão de livros que fizeram parte da minha vida, não teve mais fim. Por isso, sempre que lembro do passado, as memórias vêm acompanhadas pelos personagens da literatura que, em diferentes épocas, “dialogavam” comigo.


Ao longo do tempo, minha frenética busca por boas leituras não foi, contudo, fácil. Hoje, me dou conta do quanto ela era prejudicada pela produção incipiente de livros infantojuvenis, uma condição coerente com um “país de poucos leitores” e com um “modelo escolarizante” de formação literária. Pior que isso, são as consequências dessa conjuntura que, a despeito dos avanços, ainda persistem. Estou me referindo a três abismos a serem transpostos no âmbito nacional: ensinar a ler, ensinar a gostar de ler e garantir a oferta e a distribuição de bons livros (não necessariamente nessa ordem).

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queria ensinar 
as crianças

Desde que tomei consciência do impacto da literatura sobre a constituição das pessoas, me pergunto, sistematicamente, se a escola não deveria assumir também o desafio de formar leitores apaixonados, fazendo dessa condição o caminho para superar eventuais dificuldades dos estudantes. Seguindo essa lógica, parece-me contraditório que alunos tão interessados pelos livros pudessem ser problema na escola.

Esse foi o meu caso: a menina que tão cedo se apaixonou pelos livros era uma péssima escritora e, por isso, também uma péssima aluna. Fui um exemplar típico do que se considera “problema de aprendizagem”. Na classe, era sempre a última a copiar as tarefas da lousa; meus cadernos eram os mais feios, marcados pela letra horrível e pelas milhões de correções da professora. Difícil dizer quantos recreios eu perdi tentando dar conta de tudo o que fazia de errado, quantas tardes deixei de brincar por causa das intransponíveis lições de casa… Fui me arrastando ao longo dos anos, carregando a fama de “lenta”, até que uma professora sugeriu à minha família um encaminhamento, sinal de que a escola já estava perdendo a paciência com o meu “analfabetismo” (tecnicamente, um leviano diagnóstico de dislexia).

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Por sorte, uma competente terapeuta conseguiu “me consertar” em um prazo bastante curto. Um tipo de “conserto” que, na minha avaliação profissional de hoje, poderia, fácil e precocemente, ter sido feito pela própria escola. À dificuldade de muitas escolas em lidar com as especificidades de seus alunos, acrescentem-se a proliferação de encaminhamentos sem critérios e a profusão de profissionais despreparados que, tão precocemente, rotulam os alunos e comprometem sua autoestima.

Por isso, quando penso na minha sorte, penso, também, nas crianças que, como eu, também se arrastaram pela escola e, ainda hoje, têm seus processos de expulsão legitimados por supostas patologias. Quando o sistema insiste em olhar para o estudante, não pelas conquistas já realizadas, mas por aquilo que supostamente lhe falta; quando a escola fecha as portas para a diversidade, o que prevalece é o abandono de muitos estudantes. A eles, só falta a coragem de dizer: azar de quem não tem sorte!

*Publicado originalmente em Carta na Escola