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Ilustração de Laura Beatriz

Além de escrever, uma de minhas atividades mais frequentes é visitar escolas para conversar com alunos que leram meus livros. Foi-se a época em que os autores permaneciam reclusos em suas casas trabalhando. Hoje, levam uma vida cigana de aventuras pelo Brasil, visitando escolas, bienais e as festas literárias que pipocam, do Oiapoque ao Chuí.


Eu mesmo coordeno uma, a FLU, um festejo das letras em minha cidade, Uberaba, Minas Gerais. Acho ótimo promover o encontro de autores e leitores! Mas, para ser justo, isso não é bem uma novidade: lembro de que meu primeiro contato com um autor foi no fim dos anos 80, quando Ziraldo foi ao colégio onde eu estudava, já bem Flicts e com cabelo de algodão.

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A verdade é que essa história de festa literária, tão em moda agora, é um trabalho que instituições educacionais País afora fazem há anos: organizam festivais literários, feiras de livros, semana cultural… São tantos os formatos e as ideias! Bem, mas estou dizendo tudo isso para contar que visitei uma escola e encontrei uma professora se perguntando se todo esse esforço, de organizar um evento, trazer o autor, desenvolver projetos especiais para leitura… se isso, afinal, tinha algum resultado prático.

Ela tinha a sensação de que estava perdendo feio para a tecnologia. Entendo seu questionamento. Quem organiza um evento desse tipo sabe a labuta que é.  Precisamos mesmo avaliar resultados e tenho uma historinha que pode ajudar nessa questão.

Certo dia fui até uma editora para fechar a publicação de cinco livros, uma coleção. Quem ia cuidar da edição desses títulos seria Luiz Camargo, que, além de editor, é autor e ilustrador de livros infantis e, por obra do destino, tinha escrito Panela de Arroz, livro por mim lido e conhecido, de cor e salteado, para passar de ano, na então Primeira Série Primária.

Bem, isso já foi motivo de boas risadas, mas o melhor estava por vir: quando disse que era de Uberaba, ele ajeitou-se na cadeira e contou sobre uma emocionante homenagem recebida lá – organizada pela professora Vânia Maria Resende –, na qual os alunos do colégio por ele visitado o esperavam com cata-ventos de vários tamanhos e cores, nas mãos. Então, já comecei a rir, pois era eu justamente um daqueles meninos, participando de um belo encontro literário, num alegre dia de sol e céu azul!

Acredito que esse relato ilustra bem o resultado do trabalho de tantos professores: um dia, eu era um menino com um cata-vento, no outro, era um autor, numa grande editora, publicando quatro livros. Ainda resta alguma dúvida?

*Publicado originalmente em Carta na Escola