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Avô guarda-chuva

Sempre tive receio de provas, exames e testes. Para piorar, tive ainda um professor de Ciências que de vez em quando fazia chamadas. Para mim era o terror. Ele entrava em sala e anunciava: “Sumário: revisão da matéria dada, chamadas”. Uma chamada era a convocação do aluno ao quadro-negro, em que o infeliz era questionado sobre os conteúdos lecionados até então, de modo aleatório.


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O professor, carrancudo, fuzilava a sala de aula com o olhar, fixando um a um, todos os alunos. Muitas vezes me escondi atrás do colega da frente, tentando a invisibilidade. Não raro, em vão. Também não raro, nessas ocasiões, minhas pernas e queixo tremiam. Era penoso.

Hoje, vez ou outra me perguntam qual foi o exame mais difícil que tive de fazer, qual a prova mais complicada que tive de prestar, qual o mestre mais austero ou a professora mais rigorosa, qual a chamada que mais me amedrontou, qual o teste mais exigente que enfrentei…

Anos atrás não seria fácil responder a essa questão. No entanto essa dificuldade durou apenas até ao dia em que visitei meu avô, pouco tempo depois de me formar em engenharia de telecomunicações.

Durante mais de 50 anos, o pai de minha mãe consertou guarda-chuvas. Era a sua profissão. Tinha uma pequena oficina no térreo da casa em que vivia, onde atendia os fregueses, como era usual na época. Vezes sem conta eu ficava apreciando o invulgar esmero com que ele fixava um cabo, torneava uma ponta ou consertava uma haste. Era das poucas pessoas que sorriam quando uma nuvem escura se formava no céu.

No ano em que me formei, visitei-o. Fui recebido com um sorriso nos lábios e um abraço apertado. Depois de um longo silêncio, enquanto com orgulho me segurava pelos braços e me olhava fixamente nos olhos, disse: “Tenho um trabalho para o nosso engenheiro: a torneira do banheiro não para de pingar desde a semana passada”.

Engoli em seco. Como explicar que telecomunicações e torneiras não combinam muito bem? Mas, e antes que se esboçasse o mínimo desapontamento em seu rosto, subi cantarolando as escadas. Uma vez lá em cima, durante duas horas e meia suei, desesperei-me, lutei com a torneira, encharquei o banheiro, martelei, dei socos na parede, atarraxei – mas consertei a torneira.

Desci um pouco tonto, todo molhado e com o polegar da mão direita sangrando.

Meu avô conversava com um velho companheiro. O assunto era a eficiência e rapidez com que o neto dele estaria reparando a torneira.

Hoje não tenho dúvidas em afirmar que essa foi a mais dura, a mais exigente e a mais complicada prova que já prestei. Nem as chamadas que o professor de Ciências fazia se lhe comparam.

Pedro Veludo é escritor, autor de Da Guerra dos Mares e das Areias: Fábula sobre as marés, indicado ao Prêmio Jabuti 2014 na categoria infantil.

*Publicado originalmente em Carta na Escola