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A primeira cena de Carne Trêmula (1997), de Almodóvar, se passa no dia 31 de dezembro de 1970. Uma prostituta, a caminho da maternidade, dá à luz num ônibus. A sequência termina, num movimento vertical de câmera, desnudando uma Madri fria e deserta. Estamos na Espanha da ditadura franquista.


Na última cena do filme, 20 anos depois, também na noite de ano-novo, o garoto parido no ônibus, e agora já adulto, se encontra na mesma praça que o viu nascer. A câmera mais uma vez faz um movimento vertical e nos mostra uma Madri revigorada e democrática, com milhares de pessoas nas ruas celebrando a data.

No filme, o que mais chama a atenção é justamente como a questão da apropriação do espaço público pode alterar nossa vida. No Brasil, ainda vivemos a ideia de que os espaços públicos não nos pertencem. Aprendemos com a ditadura que o espaço público é o lugar de ninguém. As ruas não nos pertenceriam. Sendo de ninguém, o espaço público passou a ser depredado, abandonado. Um problema educacional, portanto.

Milton Santos, o geógrafo, afirma que território não é simplesmente a superposição de um conjunto de sistemas naturais. Antes, é o chão e sua população, a identidade que surge do pertencimento àquilo que lhe é inerente. Desse modo, território é base, residência, espaço de troca.

Santos ainda prega que não existe cidadania num mundo apartado e que ela precisa ser construída, implicando um sentimento de compaixão e de união para o bem comum, no espaço comum.

Portanto, a educação solidária deve ser estruturada de modo a investigar, refletir e possibilitar a conquista do saber-fazer no território, apoiado na prática, que resulta no saber-ser.

Sob esse prisma, o conhecimento não se dá por meio de mecanismos de acumulação, mas de expansão, desdobramento natural de janelas do fazer. E o esforço será pelo intercâmbio, entre educadores e educandos, de saberes teóricos, formais e sensibilizadores na esteira das histórias pessoal e coletiva, passando ao largo do regime de subordinação, herança das pedagogias tradicionais.

Vou me ater, agora, ao que conheço: o teatro. Ao longo da história, essa arte tem sido utilizada como ferramenta para a compreensão de diversas ciências. Da sociologia à antropologia, da psicanálise à política, o teatro sempre foi motor de elucidação das questões humanas. E o teatro também pode nos ajudar a compreender que o espaço público não é um lugar de ninguém. Ao contrário, é algo que nos pertence.

A grande questão do teatro tem sido, desde sempre, incluir o outro por meio da experiência. Desde os gregos, sua proposta continua a mesma: construir, manter e vivenciar relações no espaço público, que nos pertence e ao qual pertencemos.

Como no caso do teatro, a experiência no território pode ser fundamento para uma pedagogia do nosso tempo.  Se o foco está na vivência e não exclusivamente no resultado, o que importa é o fazer no espaço. Façamos, então. Nas escolas, como na vida, é necessário tomar as ruas, as calçadas, as praças para, assim, aprender a construir o nosso território. O futuro é agora.

*Publicado originalmente em Carta na Escola