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Ilustração de Laura Beatriz

Sinto falta de ar quando fico pintando por muitas horas no ateliê. Não é bem que o ar falte e não é que não esteja respirando. O ar entra, mas não sai. No intuito de prestar atenção no que faço, inconscientemente prendo a respiração, deixando de expirar.


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O resultado é uma estranha sensação de desconforto ao final de uma longa seção de pintura, caracterizada pela necessidade de ficar buscando mais ar, de racionalizar a respiração. Não é grave, passa rápido e, então, quando a respiração se normaliza, a energia que estava toda concentrada na cabeça volta a circular pelo corpo.

O processo para a criação de um trabalho de arte possui um número grande e indeterminado de etapas e pode variar radicalmente de um artista para outro. Numa descrição rápida, no meu caso, esse processo normalmente começa com uma ideia, um insight, que acontece como um flash mental.

A ideia, muitas vezes disforme, é de natureza intuitiva e vai se transformando ainda na mente, numa intenção. Aos poucos essa vontade vem a se tornar imagem. A fim de concretizá-la, são feitos normalmente estudos em desenhos e aquarelas. Como venho trabalhando com apropriação de imagens prontas, que já vêm impressas em tecidos e camisetas, entre outros, inicio conjuntamente uma busca por materiais.

Realizo pinturas pequenas para testar materiais e procedimentos construtivos. Quando finalmente todos os recursos necessários encontram-se disponíveis, é possível partir para a execução da pintura-objeto que precisará ainda alcançar a escala apropriada e os contornos finais adequados. Consultando constantemente a ideia mental inicial, concentro-me para conseguir aproximar o objeto real que vai surgindo ao pensamento abstrato que o originou. De tal modo que os principais conceitos envolvidos possam ficar devidamente evidenciados.

Buscando realizar assim o casamento mais perfeito possível entre o que se desejou e aquilo que se é efetivamente capaz de concretizar. O ato de criação consiste na atribuição de significados à soma de imagens, cores e formas, com a intenção de inaugurar novas leituras, novos entendimentos para o que nos cerca.

A etapa da pintura é antecedida pela construção do objeto propriamente dito. O aspecto artesanal da realização manual tem sido intencionalmente reforçado por acreditar-se positiva a contribuição dessa linguagem característica da cultura brasileira. Presente nas rendas, bordados, objetos de couro e toda sorte de tapetes de palha trançada, crochês etc., são realizados com desenhos que se repetem a décadas, alcançando dessa maneira um curioso grau de sofisticação visual.

A camada final de tinta tem a função de contextualizar o conjunto, unificar imagens pela cor, num todo poético. É nessa hora, em que todo aparelho perceptivo se afina para elaborar as nuances de cor, que me falta o ar. Tudo isso está colocado de forma sintética e abreviada e, apesar da satisfação e da sensação de bem-estar pela realização da grande pintura, os questionamentos, ansiedades e inseguranças nunca cessam.

*Publicado originalmente em Carta na Escola