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Mathéo Boisselier
Nicolau (Mathéo Boisselier) vive na França criada pelo olhar infantil

A obra do escritor René Goscinny (1926-1977) – de enorme popularidade na França e conhecida em diversos outros países – tem como principal cartão de visita o universo de Astérix, ilustrado por Albert Uderzo. Em 1959, em parceria com o desenhista Jean-Jacques Sempé, Goscinny criou outro personagem que se enraizou na cultura nacional, le petit (o pequeno) Nicolas. Suas aventuras envolvem amigos de nomes extravagantes, como Rufus, Alceste e Clotaire, e um olhar curioso para o mundo.


Até 1965, essa turma teve suas histórias contadas em revistas e em cinco livros. A morte de Goscinny parecia encerrar de vez a trajetória dos personagens, mas, para sorte dos fãs, a filha do escritor encontrou material inédito nos arquivos do pai. Nicolas retornou em 2004, com a publicação de novo livro. Em 2009, as homenagens pelo 50º aniversário incluíram uma série de animação para a tevê, com 52 episódios de 13 minutos em 3D, e um longa-metragem para cinema, lançado no Brasil como O Pequeno Nicolau.

A boa recepção internacional levou rapidamente a uma continuação, As Férias do Pequeno Nicolau (2014). Mas não tão rápida para que o ator do primeiro filme, o estreante Maxime Godart, pudesse retornar ao papel. Crescido, ele precisou ceder o lugar a outro estreante, Mathéo Boisselier. Os pais do menino, no entanto, continuam a ser interpretados por dois ótimos atores, Valérie Lemercier (que, por coincidência, fez também o mais recente longa com o outro personagem famoso de Goscinny, (Astérix e Obélix: A Serviço de Sua Majestade) e Kad Merad (de Não se Preocupe, Estou Bem! e A Riviera não É Aqui).

Manteve-se também uma sábia decisão da equipe, comandada pelo diretor Laurent Tirard (As Aventuras de Molière) – que, como jornalista, assina o livro de entrevistas Grandes Diretores de Cinema. Nicolau, seus pais e colegas vivem na França dos anos 1950, mas de acordo com a visão que crianças teriam dela. Essa recriação de época idealizada e romântica evoca o universo concebido por Goscinny e Sempé, mas não impede, como no original, que comportamentos adultos sejam delicadamente criticados.

Desta vez, as situações satirizadas envolvem status social, sociedade do trabalho, padrões de consumo e relações afetivas. Nicolau, seus pais e sua avó (Dominique Lavanant) passam as férias em um hotel de praia, onde conhecem outros turistas e protagonizam sequências de humor que, às vezes, parecem esquetes de programas humorísticos de tevê. Mas a espirituosidade do protagonista triunfa ao final.

Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema, doutor em Educação Audiovisual pela USP e professor universitário