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Meu primeiro amor literário veio embutido num desenho animado. Calma, não apedreje a autora! O tal desenho, como tantos por aí, baseia-se num livro: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Alice inaugurou em minha vida a via do fantástico. Feito eu, a personagem era loirinha e curiosa. Resultado: identificada com a heroína, entrei numa de que tudo podia. O que, de certa forma, é verdade – pelo menos na ficção.


Um dos maiores encantos da história, para mim, é o mergulho no inconsciente com a cabeça no pescoço. Claro que ninguém dá esse mergulho sem risco de se afogar. E Alice vai fundo. Não à toa, ao cruzar com a Rainha de Copas, rola a ordem: “Cortem-lhe a cabeça!” Felizmente, Alice conserva a sua no lugar (em todos os sentidos).

Uma menina – a personagem – abriu para outra menina – a leitora – a porta da maravilha. Que título perfeito para um livro que explora o tal país até a última gota (e tem última gota nesse país?).

A narrativa espelha como minha cabeça funciona. Portanto, foi um alívio perceber que eu não era a única a perseguir coelhos que só têm olhos para o relógio.

Amo Alice, mas o que me atrai mesmo é falar sobre livro. Mario Quintana já nos ensina que “livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Livros mudam as pessoas”. O fato é que a realidade não supre o que pressente a alma nem responde a todas as questões. Estamos, feito Alice, sempre atrás de algo que nos tire o pé do chão, que nos leve além do espelho, simplesmente porque a rea­lidade não dá conta. De quê? De tudo, ora!

Foi esse inocente (?) livro infantojuvenil que me conduziu ao olho do furacão. Ou seja, ao âmago da condição humana.

Einstein, cientista pé no chão, mas antenado no novo, afirmou que “a imaginação é mais importante que o conhecimento”. Alice (ou melhor, Lewis Carroll) já sabia disso, e eu assino embaixo. Afinal, é no terreno fértil do alumbramento que fermentam ideias que ultrapassam o possível.

Que serviço extraordinário prestam as histórias, ao nos “desinstalar”! Sigamos, então, Alice, nossa guia num país de maravilhas, para fuxicar o mistério e o que trazemos por dentro, mistério até para nós mesmos.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental