COMPARTILHE
Créditos: arquivo pessoal

Por Luana Tolentino


Para Mariana Rosa, com todo amor e esperança que há em mim

Mais um ano letivo chega ao fim. Estou completamente e-x-a-u-s-t-a. Para além das dificuldades que são comuns à docência, vi o discurso de ódio ganhar força no espaço escolar. Vi perseguição e intimidação. Vi professoras e professores sendo encarados como inimigos a serem combatidos. Vi salários atrasados. Vi retirada de direitos. Vi o avanço da iniciativa privada sobre a educação pública. Vi o silêncio que me revolta.

Acontece que em meio a tanta decepção e descrença, tive o privilégio de seguir encantada pela sala de aula, espaço que me fascina e emociona. É importante ressaltar que precisei me ausentar em alguns momentos. Aos meus alunos e alunas, peço desculpas mais uma vez.

Reconheço que não fui a professora que eles merecem ter, mas acredito que 2018 me presenteou com oportunidades fundamentais para a minha formação pessoal, docente e acadêmica. O melhor de tudo é que meus alunos e muitos colegas de jornada entendem isso. Sou imensamente grata pela acolhida e pela compreensão diária.

Nos últimos 11 meses, escrevi uma dissertação de mestrado e um livro. Ajudei a organizar outro. Dei cursos. Acompanhei a implementação do Ubuntu/Nupeaas, projeto que oportunizou a formação de 97 Núcleos de Pesquisa de combate ao racismo em escolas estaduais de Minas Gerais. Para isso, viajei quase cinco mil quilômetros. Valeu a pena!

Vi muitas dificuldades, mas vi também o impacto de uma política pública antirracista na educação. Jamais esquecerei das palavras de um aluno de 17 anos. Elas fazem muito sentido nesse período em que milhões de pessoas estão com o pensamento completamente voltado para as compras de Natal:

– No Brasil, as pessoas só compram bonecas brancas. As negras ficam nas prateleiras pegando poeira.

Leia Também:
“Na escola, os meninos negros são os que as pessoas mais querem bater”

Nesse ano marcado por tantos retrocessos, não posso deixar de mencionar a gratidão que sinto pela escritora Mariana Rosa. Autora do livro Diário da mãe da Alice, Mari passou uma manhã em nossa escola. Nunca mais fomos os mesmos. Mariana mudou o meu olhar, o nosso olhar em relação aos nossos colegas de classe que são considerados deficientes.

Com o seu exemplo e dedicação, Mariana incutiu em mim a necessidade de afirmar diariamente que a educação é um direito de todos e todas. A escola deve ser um espaço em que as particularidades e as pluralidades de cada um devem ser respeitadas e valorizadas. Devemos lutar para que isso de fato aconteça.

A mim, ela ensinou também que mesmo que os alunos com necessidades especiais tenham uma acompanhante de ensino, preciso encontrar formas de ensiná-los, assim como faço com os demais. É meu dever. É minha obrigação. É dever dos estados e municípios ofertar programas de formação continuada de professores que contemplem a Educação Especial. A sala de aula não é uma forma na qual todos devem ter as mesmas características para que sejam bem aceitos. Definitivamente, não é.

Leia Também:
É possível incluir? Quatro escolas mostram que sim!

Foi exatamente esse nosso esforço de fazer da sala um espaço plural e inclusivo que fez transbordar o meu coração. Vi nas aulas em círculo um caminho para não permitir que nenhum aluno ficasse invisível. Vi nas atividades em dupla e em grupo uma maneira de incluir, de dar voz aos que na maior parte do tempo são silenciados e excluídos. No exercício de autoavaliação, Maria Clara escreveu:

– Gosto de sentar com o Carlos. Queria sentar com ele mais vezes. Ele sabe muitas coisas.

Carlos é um garoto autista, cuja aprendizagem não vai ao encontro do que a escola tem como ideal, mas como a Maria Clara disse, ele sabe muitas coisas. Carlos tem uma capacidade incrível de interpretar e associar os fatos. Ele sempre tinha respostas para as minhas perguntas.

Leia Também:
“O círculo em sala de aula impede que os alunos fiquem invisíveis”

Na autoavaliação, Maria Clara mostrou que todos nós podemos e devemos aprender com ele. Dessa maneira, os conhecimentos que cada um carrega devem ser levados em consideração. Com suas palavras, ela nos mostrou que é necessário construir pontes capazes de estreitar laços, inclusive com aqueles que são considerados “diferentes”.

Além dessa experiência tão marcante, foi maravilhoso aprender e ensinar sobre o fascismo e o nazismo. Fiquei tomada de felicidade ao ver estudantes do 9º ano associando os regimes totalitários do início do século passado com o tempo presente. Os que nos acusam de “professores doutrinadores”, subestimam a capacidade dos adolescentes de pensar e construir conhecimento.

Das rodas de conversa sobre as eleições, sobre os perigos que representam o desconhecimento da nossa história, só sinto orgulho e saudade.

Leia Também:
Debater política em sala de aula é imprescindível

Foi muito bom conhecer a Malala e a Anne Frank. Por uma educação feminista, antirracista e cidadã, conhecemos também a trajetória de vida de Marielle Franco, nossa homenageada no Dia da Consciência Negra. Davi não gostou muito da ideia:

– Mas, professora! A Marielle era sapatão! – Disse indignado.

Antes que eu tentasse desconstruir esse pensamento tão carregado de preconceitos, e explicasse novamente a importância da Marielle para as mulheres, para os negros, para os favelados e também para todos que defendem o direito à vida, Ryane respondeu por mim:

– Não importa se a pessoa ama homem ou mulher! Nós temos que respeitar! – Afirmou com convicção a garota de 11 anos, que é uma excelente rimadora. Um verdadeiro talento!

Apesar de tudo, alegro-me ao fazer essa retrospectiva da minha experiência em sala de aula no ano de 2018. Não fossem essas pequenas revoluções diárias, talvez não encontraria fôlego para chegar até aqui. É certo que viveremos tempos de muita miséria e violência. Meu desejo é que encontremos caminhos para resistir a todo horror que nos cerca.

A educação continuará sendo a minha trincheira de luta.

Que venha 2019!

Luana Tolentino é mestra em Educação pela UFOP. Há 10 anos é professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana da cidade. Suas práticas pedagógicas partem do princípio de que é preciso construir uma educação antirracista, feminista e inclusiva, comprometida com o respeito, com a justiça e com a igualdade. Em 2018, lançou pela Mazza Edições seu primeiro livro: Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula.