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Por Luana Tolentino


Escrevo ainda impactada pelas imagens das agressões que precederam a morte de Tatiane Spitzner, ocorrida na madrugada do dia 22 de julho. Não sai da minha cabeça o momento em que Luiz Felipe Manvailer, principal suspeito de ter assassinado a advogada paranaense, levanta as mangas da camisa, de modo que elas não o impedisse de desferir uma série de golpes contra a companheira, evidenciando toda a sua frieza e crueldade.

Como não poderia deixar de ser, no dia seguinte à divulgação dos vídeos, conversei com as minhas turmas sobre a violência que acomete mulheres em todo o país. Pedi a eles que jamais esqueçam que a culpa nunca é da vítima, mas do agressor. Pedi ainda que não tolerem qualquer comentário que reforce a ideia equivocada de que as mulheres provocam, e em função disso, merecem apanhar.

Partindo dos estudos sobre o Iluminismo, semanas antes do assassinato de Tatiane Spitzner, organizamos um trabalho sobre o feminicídio, no qual os alunos e alunas do 8º ano deveriam realizar pesquisas a respeito desse tema. Entendo que a escola precisa manter um diálogo constante com as questões do nosso tempo, possibilitando aos estudantes refletir e questionar a sociedade na qual estão inseridos.

Na quinta-feira (09/08), teve início as apresentações dos trabalhos. Meu coração estava em festa! As conversas, a alegria e a movimentação da sala sinalizavam que tudo foi preparado com muito empenho, dedicação e alegria, formando assim, uma verdadeira “comunidade de aprendizado entusiasmada”, conforme nos ensina a educadora norte-americana Bell Hooks. Organizamos um semi-círculo para evidenciar que a participação e a colaboração de todos era importante. Dessa maneira, construímos um espaço horizontalizado, no qual eu também era uma aprendiz. Coube a mim apenas mediar as falas e o debate posterior à exposição dos alunos e alunas.

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Alice iniciou a apresentação lembrando que a Lei do Feminicídio (13.104/15) foi sancionada pela presidenta Dilma Rousseff. Ao ouvir a minha aluna, recordei que em 2015, um dia antes da morte violenta de mulheres por razões de gênero tornar-se crime hediondo, a Folha de S.Paulo publicou um editorial odioso, taxando a medida que alterou o Código Penal de “absurda”, “populista” e “extravagante”. Indignadas, um grupo de amigas feministas e eu, enviamos à Vera Guimarães Martins, na época ombusdman do jornal, uma série de mensagens repudiando a postura do maior periódico do país.

Marianny apresentou as terríveis estatísticas sobre a violência contra o sexo feminino. A partir do levantamento feito pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP, ela disse para a turma que 12 mulheres são vitimadas pelo feminicídio todos os dias. Com propriedade e segurança, Estefany afirmou que, “mulheres e meninas que sofrem violência psicológica, física ou sexual, devem denunciar” os agressores. Disse também que caso lhes faltem coragem, é importante dividir a dor e o sofrimento com alguém. Mayra completou dizendo que muitas não denunciam por vergonha, por se sentirem culpadas ou por medo de serem novamente agredidas ou até mesmo assassinadas pelo (ex-) companheiro ou (ex-) namorado.

As garotas criticaram ainda algumas letras de funk que desqualificam as mulheres e incentivam a cultura do estupro, como é o caso de “Surubinha de leve”, de autoria do MC Diguinho. A letra, que após mobilização na internet foi alterada, dizia o seguinte:

“Hoje vai rolar suruba / Só uma surubinha de leve/ Surubinha de leve / Com essas filha da p… / Taca a bebida / Depois taca a pica / E abandona na rua”.

Em resposta à canção machista e misógina, Alice, Estéfany, Mayra e Marianny apresentaram para os colegas uma paródia feita por Carol & Vitória, duas jovens feministas, cujos versos ficaram assim:

“Agora vou te responder / Então vê se senta e escuta / Olha o que ela tem a dizer / Essa que tu chama de filha da p… / Ãn ãn ãn ãn ãn pega visão / Pode vir sem dinheiro, mas trás papel e caneta / Pra ver se anotando entra algo nessa tua cabeça / Abusar a mulher é crime, estupro é violência, tira as mãos de cima dela e coloca na consciência / Só um recadinho de leve / Recadinho de leve / Sociedade machista / Não pensa que me ofende ao me chamar de feminista / Só um recadinho de leve / Recadinho de leve / Pra quem fala o quer / Não calo a minha voz pra defender uma mulher…”

Foi uma verdadeira apoteose. Não conhecia a paródia. Gostei tanto que aprendi a cantar. Ao final da apresentação, as meninas foram longamente aplaudidas pela turma. Aprendemos com o funk, com as estatísticas e com cada palavra que elas disseram. Sou capaz de afirmar que Dilma Rousseff e Eleonora Menicucci, duas das maiores defensoras da Lei do Feminicídio ficariam muito orgulhosas das minhas alunas. Simone de Beauvoir, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Heleieth Saffiotti, Margareth Rago, Constancia Lima Duarte, Sueli Carneiro e tantas outras ativistas pelos direitos das mulheres sentiriam orgulho também.

Garantir às mulheres o direito a uma vida digna é um dos grandes desafios do Brasil atual. Enquanto dedilho esse texto, certamente pelo menos uma brasileira foi agredida, estuprada ou morta. É preciso que toda a sociedade se empenhe no combate ao feminicídio e a todas as formas de discriminação que violentam, subjugam e inferiorizam o sexo feminino, sobretudo as afro-brasileiras. De acordo com o Mapa da Violência de 2018, do total de mulheres assassinadas entre 2006 e 2016, 71% eram negras.

A escola não pode ser indiferente a essa luta. Promover pedagogias feministas que empoderem as meninas e liberte os meninos da masculinidade tóxica e de todos os males que ela provoca, é mais que um dever. É uma obrigação.


Luana Tolentino é mestra em Educação pela UFOP. Há 10 anos é professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana da cidade. Suas práticas pedagógicas partem do princípio de que é preciso construir uma educação antirracista, feminista e inclusiva, comprometida com o respeito, com a justiça e com a igualdade. A especialista estreia como colunista do Carta Educação e escreverá artigos quinzenalmente.