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Créditos: divulgação

Por Luana Tolentino


Escrevo com alguns dias de atraso. A vida anda muito difícil. Escrever também. Ainda que eu tente, é impossível não ser afetada pelo cenário de dor, de injustiça, de ódio e de descrença que paira sobre o país. Como se não bastasse, escrevo sobre Educação.

Eu que sempre sou muito esperançosa, me sinto constrangida em expressar otimismo no momento em que o 13º salário dos professores da Rede Estadual de Educação Minas Gerais foi parcelado em 11 (onze!) vezes.

Esse mesmo constrangimento dificulta o meu processo de escrita quando lembro que em vários municípios mineiros, as aulas terão início somente após o carnaval. Prefeitos/as e Secretários/as parecem ter esquecido que, além da educação de qualidade ser um direito, “a escola é também um equipamento público de proteção social, alimentação, segurança e convívio” para toda a comunidade escolar, conforme apontou o Fórum Estadual Permanente de Educação de Minas Gerais (FEPEMG).

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Sempre que recordo da declaração do atual Ministro da Educação, Ricardo Véllez Rodrigues – “As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual.” – me pergunto: o que vou dizer aos leitores e leitoras da minha coluna?

Pensei em desistir. É como se escrever não fizesse sentido, pelo menos por enquanto. Ana Luiza Rodrigues Basílio, editora da Carta Educação, certamente ficaria desapontada, mas, paciência….Quando já estava completamente tomada pelo desânimo, lembrei das palavras do mestre Paulo Freire, uma verdadeira luz no meu caminhar:

É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo.

Nesse esforço para não desanimar, para manter viva a minha esperança, para continuar partilhando por meio das palavras “a dor e a delícia” de ser professora de uma escola pública periférica, decidi escrever sobre uma prática pedagógica que tenho adotado desde 2015.

Inspirada pelo trabalho da educadora norte-americana Kyle Schwartz, no início do ano letivo, peço aos estudantes que respondam à seguinte pergunta: O que eu gostaria que a minha professora soubesse?

Embora seja uma atividade aparentemente simples, as respostas são verdadeiros tesouros que me auxiliam na elaboração de metodologias de ensino que respeitem as particularidades e as pluralidades de cada estudante. Mais do que isso: através desse exercício, é estabelecida uma relação de confiança, apreço e respeito entre os estudantes e eu.

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Parto do princípio de que as crianças e os adolescentes com quem aprendo e ensino são seres únicos, dotados de saberes e múltiplas trajetórias de vida, que impactam diretamente na maneira como cada um concebe a escola e as pedagogias difundidas nela. Desse modo, considero um tanto quanto injusto exigir que sujeitos com os mais variados pontos de partida, tenham o mesmo ponto de chegada.

É importante mencionar que, ao propor essa prática educativa, fico receosa de encontrar resistência por parte dos estudantes, mas não é isso que acontece. Penso que eles compreendem que, ao pedir que dividam comigo algumas de suas vivências, na verdade, estou tentando dizer: Além de ser professora de História, eu também me importo com vocês!

Na tentativa de mostrar aos que me leem quão valorosa essa atividade pode ser, reproduzo algumas respostas elaboradas por estudantes com idade entre 12 e 19 anos:

Eu gostaria que a minha professora soubesse…

“Que tenho um irmão de dois anos. Ele é a minha vida.”

“Que o meu sonho é ser jogador de futebol para ajudar a minha família.”

“Que o meu pai está com câncer em estado terminal.”

“Que eu faço parte da família LGBT.”

“Que eu sou inteligente e aprendo rápido. Aprender não é um obstáculo para mim.”

“Que a minha mãe me abandonou na rua quando eu tinha cinco meses.”

“Que eu quero fazer faculdade de Medicina, apesar de não ter condições de pagar.”

“Que eu virei vegetariana depois que vi um porco morrer.”

“Que eu descobri que não posso ver o meu pai e isso é muito triste.”

“Que eu sou casada e tenho uma filha de dois anos.”

“Que eu tenho muito dificuldade para aprender a matéria.”

“Que ter o direito de expressar minhas opiniões e ideias é algo proibido pra mim em casa. Então, o único lugar que sou livre é aqui na escola.”

“Que eu não gosto de esperar para ir ao banheiro, porque eu não consigo segurar.”

Durante a leitura, transito entre a surpresa, o riso e a emoção. Compreendo ainda mais o caráter político e social da educação. Quando me deparo com algum relato de dor ou de injustiça, miro o meu pensamento nas ferramentas que possuo enquanto professora e no modo que posso utilizá-las para ao menos amenizar as dificuldades que se apresentam no caminho dos meus alunos e alunas.

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Toda vez que pergunto – O que eu gostaria que a minha professora soubesse? – me sinto mais humana. Tenho a impressão de que humanizo a sala de aula também. Me encanto. Entendo que mais do que nunca, esperançar é um dever. Reforço a minha crença de que outra educação é possível.

Luana Tolentino é mestra em Educação pela UFOP. Há 10 anos é professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana da cidade. Suas práticas pedagógicas partem do princípio de que é preciso construir uma educação antirracista, feminista e inclusiva, comprometida com o respeito, com a justiça e com a igualdade. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.