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Roda de samba

Muito antes de denominar um gênero musical, o nome “samba” se aplicava a qualquer refrão, coro ou estribilho ritmado, de aspecto mais ou menos africano.


Hoje, o samba, em seus vários estilos e modalidades, é uma forma de canto e dança e um bem imaterial valioso, gerando renda e prestígio, na condição de símbolo máximo da identidade musical brasileira.

Leia atividade didática de História sobre o samba
Anos do ciclo: 7º ao 8º
Objetivos de aprendizagem: Reconhecer a importância do patrimônio étnico-cultural; Coletar e interpretar informações de diferentes fontes de informações

1. Proponha uma pesquisa sobre a formação dos núcleos do samba no Rio de Janeiro, a partir das reformas do prefeito Pereira Passos, incluindo o desmonte do morro de Santo Antônio e a demolição dos cortiços no Centro. Analise como isso foi determinante para a criação das escolas de samba.

2. Estude as biografias de Paulo da Portela e Candeia, evidenciando o trabalho de ambos, cada um em seu tempo, pela valorização da cultura do Brasil afrodescendente e do samba.

3. Pesquise a Era Vargas e suas políticas de fortalecimento da identidade nacional (1930-1945) , muitas vezes apontadas como fruto de ideias fascistas. Compare com a liberalidade dos dias atuais, com a adoção desenfreada de padrões culturais, e até mesmo linguísticos, internacionais (o inglês mal assimilado vem dificultando o aprendizado e o uso do português ou não?). Discuta como isso pode estar influenciando o modo de compor e interpretar o samba.

4. Pesquise sobre o universo temático da bossa nova, comparando as composições, cujas letras desenvolvem temas meramente contemplativos, como O Barquinho , O Amor e a Flor etc., com as de reação à Ditadura de 1964, com autores como Carlos Lyra, Sergio Ricardo e outros.

5. Apresente as transformações no mundo e na vida brasileira a partir de 1968, e principalmente na década de 1970. Situe como isso repercutiu no samba e especialmente nas escolas de samba.

6.Partindo da premissa de que existe um preconceito contra o samba, examine e quantifique a forte presença do gênero nos repertórios de ícones da MPB, tais como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e João Bosco.

Se voltarmos ao Brasil escravista, nos tempos coloniais e imperiais, nas breves folgas do trabalho, os escravos se agrupavam cantando e dançando.  Nas cidades, eles geralmente saíam às ruas em cortejo; da mesma forma que os das fazendas dançavam em rodas, nos terreiros.

As várias danças de roda tinham características que as aproximavam, sendo a umbigada (no momento de escolher o substituto na roda) sua característica principal.

E as urbanas, em geral, ocorriam em solenidades, como as de posse dos reis simbólicos das diferentes etnias, organizadas em irmandades, portando os respectivos estandartes ou bandeiras.

Daí que veio o samba, música e dança; e se originaram as antigas manifestações em cortejo que deram origem às escolas de samba.

Observemos que, até hoje, em Angola, o vocábulo semba, mas não samba, dá nome a uma dança urbana, caracterizada pela umbigada, acima referida.

E em diversas línguas locais, o vocábulo samba aparece conotando movimento, especialmente em verbos, significando “pular” e “saltar”; ou designando o entrechoque de corpos etc.

Então, não há como negar a origem africana do samba.

Abolicionismo e consequências

Com o tráfico de escravos para as Américas, iniciado já no século XVI, a África foi se despovoando e enfraquecendo (além da escravização, muitas pessoas morreram lutando ou vitimadas pelas viagens desumanas nos porões dos navios negreiros), enquanto as potências europeias ficavam cada vez mais ricas e poderosas.

Até que Inglaterra, França, Bélgica, Portugal e outros países resolveram, no fim do século
XIX, dividir o continente africano entre si, para explorarem as diversas colônias.

O progresso dessas potências acabou por tornar o escravismo inconveniente. E, assim, muito menos por compaixão ou por espírito humanitário, foi que surgiu o Abolicionismo.

No Brasil, porém, a Lei Áurea decretou o fim do escravismo, mas não pensou em dar terra, casa e trabalho remunerado para os africanos e descendentes (muitos já libertos) vitimados pela escravidão.

Em vez de transformar os antigos escravos em trabalhadores livres, o Estado brasileiro preferiu trazer imigrantes europeus para as frentes de trabalho, na esperança de “melhorar a raça”, como então se dizia, pelo branqueamento da população.

Então, o século XX quando chegou, encontrou nas grandes cidades massas enormes de negros (pretos e pardos) marginalizados, se “virando” como podiam… Mas também cantando e dançando as músicas de sua tradição, as quais eram chamadas, pelo povo em geral e pelas elites, de “sambas”.

Nesses “sambas”, eram cantados e dançados, em roda, principalmente cantigas da tradição baiana, basicamente refrãos ou estribilhos que se sucediam, ritmados por palmas.

Hilária Batista de Almeida, a “Tia Ciata”, foi a mais conhecida das chamadas “tias” da comunidade baiana do Rio, antigo Distrito Federal, que eram mulheres negras civilmente livres, muitas delas comerciantes e mães de santo, as quais, graças a seu trabalho e sua autoridade ou influência religiosa, gozavam de relativa independência social e financeira. Como suas camaradas, Tia Ciata costumava promover em sua casa concorridas festas, sempre com fartura, música e alegria.

Foi a partir de uma dessas festas que teria nascido a composição Pelo Telefone, que se tornou um marco na história do samba.

O ano era 1916 e a baiana tinha perto de 62 anos. Ainda não havia emissoras de rádio, mas a indústria e o comércio de música, sim. Existiam através da venda de discos gravados e de partituras impressas para serem tocadas ao piano, nos teatros e nas casas das famílias remediadas.

O mercado estava surgindo, e alguns músicos já percebiam que uma composição musical, caindo no gosto do povo, podia render algum dinheiro.

Foi assim que o violonista e compositor Ernesto dos Santos, o “Donga”, em parceria com o jornalista Mauro de Almeida, de um pedaço de cantiga, um estribilho, ouvido numa das festas da legendária Tia Ciata, teria criado uma composição mais extensa.

Registrando-a na Biblioteca Nacional, Donga a definiu e a identificou (pois esse era um dado necessário para o registro) como “samba carnavalesco”.  Assim, o samba ganhou sua certidão de nascimento.

Do maxixe ao novo samba

Mas, nessa primeira década do século XX e até a seguinte, com José Barbosa da Silva, o “Sinhô”, Oscar José Luiz de Morais, o “Caninha”, e outros, o repertório do samba, cantado principalmente por intérpretes como Mário Reis, Francisco Alves e Araci Côrtes, pouco se distinguia, formalmente, daquele do maxixe, popularizado a partir do teatro.

Em 1927, porém, a gravadora Odeon lançava A Malandragem, de Alcebía-
des Barcelos, o “Bide”, considerada o primeiro exemplar gravado de um novo tipo de samba, criado por compositores do bairro do Estácio. Entre eles, além de Bide, estavam Ismael Silva, Nilton Bastos e outros.

Por esse tempo, o jovem Noel Rosa iniciava sua carreira compondo emboladas nordestinas e outras canções nos estilos rurais, então em voga.  Admirador confesso de Sinhô, Noel já tinha notícia desse novo tipo de samba que surgia no Estácio e dali se espalhava pelos morros próximos ao Centro.

O fenômeno se expandia, e é nesse momento que refulge a forte liderança de Paulo Benjamim de Oliveira, o “Paulo da Portela”. Influenciado pelo ambiente, o jovem Noel Rosa inicia amizades e parcerias com sambistas do Morro do Salgueiro, do Estácio, da Mangueira etc.

Tudo isso num momento em que certa imprensa saúda o ingresso de compositores e intérpretes de outra origem social, como o próprio Noel, num ambiente onde – conforme sucessivas edições da revista carioca O Malho, na década de 1930 –-, predominavam “macumbeiros” e “gente mal-encarada”.

O ambiente era o do rádio, inaugurado em 1922. No qual, por seu potencial motivacional e aglutinador, o samba acabou por ser utilizado como trilha sonora preferencial das ações do primeiro governo de Getúlio Vargas, em 1930. O que serviu para neutralizar o preconceito e avivar o sonho de ascensão social acalentado principalmente por Paulo da Portela.

Desde então, o samba passou por profundas transformações. E o processo culminou, em fins dos anos 1950, com o surgimento da bossa-nova, estilo, inicialmente referido como “samba moderno”, e no qual o gênero foi despojado de sua excitante conjugação de ritmos para se tornar mais compreensível aos ouvidos estrangeiros, o que, mais adiante, felizmente, acabou por dar certo.

Mas, logo após seu surgimento, a bossa-nova viu seu caminho dividido em dois: o do lirismo descomprometido e o dos políticos, como a miséria, a favela, a questão agrária etc.

Assim surgia a “nova geração do samba”, impulsionadora da chamada “corrente nacionalista” da bossa-nova, na qual despontaram, por exemplo, Carlos Lyra, Sérgio Ricardo, Nara Leão e Edu Lobo. Na sequência, surgiram Caetano Veloso, Gilberto Gil e Francisco Buarque de Hollanda (o futuro “Chico Buarque”), além de nomes hoje desaparecidos ou em outros caminhos.

Na segunda metade da década de 60, quando o centro irradiador das novidades internacionais deslocou-se de Paris para Londres, chegavam até o Brasil novos padrões de comportamento, sonorizados pela música dos Beatles. Aqui, isso se traduzia na

“Era dos Festivais”, no movimento conhecido como Tropicalismo e no fortalecimento da jovem guarda, estilo que ocupava as paradas de sucesso desde 1965, com Roberto Carlos. No mesmo contexto, chegava ao desfile das escolas de samba (já transmitidos pela tevê) uma nova estética, com a qual as agremiações foram gradativamente abandonando a essência que lhes dera origem em proveito de uma apresentação mais espetacular.

Na imprensa, o jornalismo cultural também passava a sofrer a influência de novas correntes de pensamento, vindas de fora, para as quais o samba era visto, cada vez mais, como uma música “regional”, não cosmopolita.

Nascia, aí, a designação MPB, que não se traduzia apenas como “música popular brasileira” e, sim, como música brasileira globalizada, obediente às determinações das gravadoras internacionais até hoje dominantes na indústria da música no País.

Mas a tradição do samba resistia. Sambistas importantes, como Martinho da Vila, Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Clara Nunes, Paulinho da Viola e a Velha Guarda da Portela conseguiam se manter ativos.

E, mais do que todos, lutava o portelense Antônio Candeia Filho, o “Candeia”, líder de uma importante tentativa de reação.  Mesmo assim, o samba continuava sendo reduzido a simples classificação “cidade” e “morro” e, explicavelmente, excluído do círculo da MPB, onde agora pontificavam artistas revelados no âmbito da “nova geração do samba”.

A reação nos pagodes
Na passagem para a década de 80, aparecia o “pagode de fundo de quintal”, um estilo que, além de incorporar novos instrumentos ou modos de executá-los, servia-se também das infindáveis possibilidades harmônicas da bossa-nova.

Entretanto, nos anos 1990, em meio à desorganização da economia, a indústria fonográfica ajudava a criar uma nova crise, quando elegia como foco de seus cuidados mercadológicos apenas duas vertentes: a da música dita “sertaneja” e a do amplo leque da chamada “música pop”, no qual cabia tudo, até mesmo uma forma diluída do pagode, açucarada, com letras nas quais só cabia o amor erotizado até o extremo.

Dentro desse quadro, alguns grupos “pagodeiros” começavam a ser lançados no mercado latino, até mesmo cantando em espanhol, num surto que fez alguns artistas do estilo passarem a negar sua vinculação ao samba.

Na contracorrente, novas gerações de adeptos organizavam-se no culto ao samba “de raiz”, denominação que abrangia desde clássicos consagrados a partir da década de 30 a composições de produção recente.

A despeito de tudo isso e muito embora a ideologia colonizada de certa mídia esteja sempre a reboque das orientações internacionais, o samba permanece com toda a sua múltipla vitalidade, tocado e gravado.

Em pagodes, rodas e shows, por pequenos conjuntos, à base de cavaquinho e pandeiros, por grandes orquestras etc., o samba evolui. E isso apesar de muitas vezes ter de dividir sua centralidade com o funk e derivados nascidos nas chamadas “periferias”.

* Nei Lopes é sambista, escritor e autor, entre vários outros livros, da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana

*Publicada originalmente em Carta Fundamental