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Holmes era inteligente e observador
O britânico Basil Rathbone, em 1945; Intérprete célebre de Holmes no cinema

O jornalista Paulo Francis escreveu que um viajante inglês perdeu-se certa vez no Deserto do Saara e, depois de dias de sofrimento, foi parar num oásis remoto, onde encontrou uns nômades de idioma ininteligível. Tentou comunicar-se com eles em todos os dialetos que conhecia, sem sucesso. Disse então, em todas essas línguas, que era inglês. Um dos nômades, velho, sujo, andrajoso, ergueu o rosto de repente, sorriu e disse: “Inglês! Sherlock Holmes!” E Francis concluiu: “Ser famoso é isto, o resto é conversa fiada”.


Leia atividade didática de Literatura inspirada neste texto
Anos do Ciclo: 8° ao 9°
Objetivos de aprendizagem: Correlacionar causa e efeito, problema e solução para estabelecer conexão entre os episódios narrados

Com seus alunos

1. A frase sobre o cão serviu de inspiração para o livro The Curious Incident of the Dog in the Night-Time de Mark Haddon, em que o detetive é um garoto de 15 anos com Síndrome de Asperger, uma forma branda de autismo. Anotar as características da síndrome e descobrir situações em que elas podem ajudar o raciocínio de um detetive.

2. Cada aluno escolhe e lê uma história de Sherlock Holmes e anota o método usado por ele para decifrar o mistério. Comparar essas notas e ver quais os métodos que se repetem com maior frequência.

3. Escrever pequenos episódios em que Sherlock Holmes (num universo paralelo) trabalha como: a) médico; b) mecânico de oficina de automóveis; c) consertador de computadores em domicílio. Inventar problemas e as deduções que ele faria para resolver esses problemas.

4. Os “Irregulares de Baker Street” são meninos de rua que conhecem como a palma da mão o centro e os bairros de Londres, e que Holmes emprega como espiões e olheiros. Inventar uma história em que garotos assim, na sua cidade, possam ajudar na investigação de um crime.

5. Pegar episódios vividos por Sherlock e Watson e recontá-los como se fossem parte das aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança (ou vice-versa). 6. Sortear duplas de alunos, colocá-los frente a frente, e pedir que deduzam detalhes da vida ou da personalidade do colega, apenas pela observação externa. Não vale usar o que já se sabe – é preciso explicar o que observou.

Sherlock Holmes e o Dr. Watson são dois dos personagens mais populares da literatura, graças aos quatro romances e 56 contos publicados por Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930).  A primeira história de Holmes foi publicada em 1887 (Um Estudo em Vermelho) e a última em 1927 (A Aventura do Solar de Shoscombe).

Holmes é o protótipo do detetive de raciocínio preciso e original. Sua capacidade de observação e a sua imaginação lhe permitem rapidamente elaborar uma teoria em torno de uns poucos fatos. O Dr. Watson, por outro lado, é seu amigo fiel e os dois partilharam durante anos o apartamento no número 221b de Baker Street, em Londres. É ele o narrador de quase todas as histórias em que Holmes aparece.

O grande observador 
Ao ser apresentado a alguém, Holmes diz coisas como: “Prazer em conhecê-lo. Percebo que o senhor é maçom, canhoto, viúvo, serviu na Marinha e esteve hospitalizado há pouco tempo”. Os poderes de dedução de Sherlock Holmes mostram alguém que, ao contrário do estereótipo do intelectual erudito, dependente dos livros, conhece o comportamento humano e os hábitos sociais dos seus contemporâneos. O modo de usar uma roupa, de se barbear, de dar corda no relógio e hábitos relativos a alimentação, fumo, bebida, meios de transporte, tudo isso são saberes do cotidiano, que o detetive domina como ninguém e percebe num relance de olhos.

Outra façanha dedutiva habitual em Sherlock Holmes é adivinhar os pensamentos de Watson apenas observando uma sucessão de pequenos gestos que ele faz, distraído. Conan Doyle copiou esse truque do Cavalheiro Dupin, o detetive criado, em 1841, por Edgar Allan Poe. Ele nunca escondeu sua admiração pelo autor norte-americano, considerado o criador das histórias de detetive.

Holmes, no entanto, teve mais tempo para crescer como personagem do que Dupin, usado por Poe em apenas três contos (Os Assassinatos da Rua Morgue, A Carta Furtada e O Mistério de Marie Roget). Sherlock tem um lado atlético que acabou sendo aproveitado (até com algum excesso) em filmes como os de Guy Ritchie, com Robert Downey Jr.  Brigava, lutava boxe, corria, escalava, usava o revólver; não era apenas o detetive cerebral, enrodilhado numa poltrona, pensando e fumando o dia inteiro.

Os poderes de observação de Holmes foram inspirados também no médico Joseph Bell, que foi professor de Conan Doyle. Curiosamente, são um tipo de dedução que se esperaria ver no Dr. Watson. Um médico e um detetive têm um método parecido de raciocinar: ambos trabalham observando e cruzando pistas, eliminando possibilidades, propondo e testando hipóteses, até localizar a origem do problema. Sherlock Holmes dizia ser “o primeiro detetive particular consultivo” da história. Recebia os clientes, como um médico, em seu “consultório” – ouvia seus problemas, propunha uma hipótese, e começava a agir para descobrir o criminoso.

Personagens quase reais
Holmes e Watson são ícones da amizade entre personagens da literatura. Como Dom Quixote e Sancho Pança, são personalidades distintas que se complementam. O enorme carisma dos personagens deu origem ao fenômeno chamado de “fanfic”, a ficção escrita por fãs. Após a morte de Conan Doyle (e mesmo antes, quando ele por algum tempo “matou” Sherlock e foi se dedicar a outros livros), fãs do detetive começaram a escrever e publicar por conta própria novas aventuras da dupla. Hoje, “fanfics” sobre séries como Harry Potter e O Senhor dos Anéis se contam às centenas de milhares.

Outro fenômeno interessante produzido pela série é o chamado Grande Jogo (The Great Game, em inglês), que consiste em considerar Holmes e Watson pessoas reais, criar uma cronologia de suas vidas e estabelecer uma coerência entre as aventuras dos dois e os fatos históricos de sua época.

Há nos EUA uma organização chamada The Baker Street Irregulars, que se dedica a essa e outras atividades em torno do grande detetive, publicando inclusive “biografias” pretensamente factuais.

 Um cânone da literatura de mistério
As aventuras de Holmes ilustram a maioria dos temas da literatura policial. A vítima encontrada morta num quarto fechado (A Faixa Malhada), a pessoa que parece ter sumido da face da Terra (O Homem do Lábio Torcido), a indecifrável mensagem em código (Os Dançarinos), o homem pacato arrebatado por uma aventura bizarra (O Intérprete Grego, O Construtor de Norwood), a elucidação de um mistério que perdura há décadas (O Ritual Musgrave), a série de pequenos crimes absurdos que parecem não ter razão de ser (Os Seis Bustos de Napoleão), a morte aparentemente causada por uma ação sobrenatural (O Cão dos Baskervilles, O Pé do Diabo), e assim por diante.

Também ficaram famosos os “bordões” de Holmes, suas frases de efeito:
“Elementar, meu caro Watson” – que na verdade nunca é pronunciada nos livros, mas ficou famosa no cinema.
“Watson, você conhece meu método” – uma espécie de convite para pôr os pés no chão e pensar de maneira prática.
“Quando eliminamos o impossível, o que resta, por mais improvável que seja, deve ser verdade” – frequentemente repetida por cientistas, ainda hoje.

Na investigação do crime do conto A Estrela de Prata, Holmes diz: “E há também o incidente curioso do cão, à noite”. Watson responde: “Mas o cão nem sequer latiu à noite”.  E ele diz: “Foi esse o incidente curioso”. É um não incidente – a ausência de um fato, percebida por quem imaginou a cena por completo e sentiu falta de um detalhe. (O cão não latiu porque o criminoso era alguém que ele conhecia.)

Watson também é um bom fazedor de frases, e é dele este comentário sobre uma quadrilha de bandidos: “Nenhuma corrente é mais forte do que o mais fraco dos seus elos.” Frase que, curiosamente, hoje é usada no contexto das telecomunicações, para descrever um sistema em que basta uma estação falhar para que todo o fluxo seja interrompido.

A carreira de Doyle
As aventuras de Sherlock Holmes têm duas fases. A primeira vai do romance Um Estudo em Vermelho (1887) até o conto O Problema Final (1893), em que Holmes é dado como morto após uma luta contra seu arqui-inimigo, o Professor Moriarty, quando os dois teriam caído do alto de uma cachoeira. Doyle estava cansado do detetive e queria se dedicar a livros que considerava mais sérios (e a verdade é que seus romances históricos, como A Companhia Branca, Sir Nigel, Os Refugiados, Rodney Stone etc., são excelentes).  Houve uma grande pressão dos leitores para que Holmes retornasse; entre 1901-1902 ele publicou em episódios o romance O Cão dos Baskervilles, mas este era apresentado como uma aventura anterior à “morte” do detetive.

Somente em 1903 Holmes “retornou dos mortos”, no conto A Casa Vazia.  A partir daí, até 1927, inicia-se a segunda fase da carreira, que muitos críticos consideram de qualidade inferior à primeira.  Conan Doyle estava voltado para os romances de ficção científica como O Mundo Perdido (1912) e O Veneno Cósmico (1913), em que o protagonista é outro personagem de grande carisma, o Professor Challenger.