COMPARTILHE
aula de judô
Mais do que meios para aquisição de disciplina, o caratê e o judô são artefatos culturais

A presença das lutas nas propostas curriculares do fim do século XX surpreendeu educadores brasileiros. Não faltou quem julgasse inadequada a inserção na escola por considerá-la um estímulo à violência. O fato chama atenção, pois houve um tempo em que as lutas eram vistas como atividades educativas. Na Antiguidade, compunham a formação dos jovens atenienses e espartanos, e na Idade Média, dos filhos da nobreza.


Leia atividade didática de Educação Física baseada neste texto

Anos do Ciclo: 4º ao 9º
Objetivos de aprendizagem: Investigar as modalidades de luta e artes marciais na comunidade; Comparar as características técnicas das lutas mediante vivências

Investigue as práticas de luta da sua comunidade e faça uma leitura das suas características culturais

1. Faça um levantamento das lutas praticadas na comunidade. Registre os conhecimentos que os alunos possuem sobre elas: vestimentas, técnicas, características dos praticantes etc. Mantenha um registro de todo o processo.

2. Organize vivências das modalidades mencionadas a partir das representações que os alunos possuem, adaptando-as em função das características da escola. Oriente o rodízio dos oponentes.

3. Após a vivência, estimule o grupo a posicionar-se sobre as dificuldades e facilidades encontradas e sugerir modificações.

4. Apresente aos alunos algumas cenas das lutas mencionadas retiradas da internet. Converse com eles sobre os sujeitos que participam, as técnicas empregadas, a organização e as formas de pontuação.

5. Reorganize a vivência das lutas a partir das observações realizadas pelo grupo.

6. Convide um praticante para ir à escola e ser entrevistado pelos alunos, descrever sua trajetória na luta e apresentar algumas técnicas.

7. Peça à turma para estabelecer relações entre as informações obtidas e as impressões que possuíam acerca das lutas e lutadores.

8. Analise os registros que fez durante todo o trabalho e identifique em que medida as atividades realizadas possibilitaram o acesso a conhecimentos mais aprofundados sobre o assunto.

Tanto o pancrácio, no primeiro caso, quanto a luta armada, no segundo, forjavam o caráter dos guerreiros. Habilidade para defender-se e coragem para atacar eram qualidades desejáveis. Princípios semelhantes inspirariam, nos séculos seguintes, o ensino da esgrima aos varões das casas reais europeias.

Esses tempos deixaram marcas. O judô e o caratê são comumente apresentados como meios para aquisição da disciplina e do autocontrole.

Desconsiderando a falta de evidências que comprovem essa correlação, algumas escolas oferecem aulas das modalidades para obtenção de benefícios educacionais.

Soa um tanto anacrônica essa justificativa. Na instituição de ensino, as lutas devem ser tratadas pedagogicamente como artefatos culturais, afinal, nada mais são do que práticas corporais que empregam técnicas específicas para imobilizar, desequilibrar ou tocar o oponente.

Enquadram-se nessa categoria desde o cabo de guerra, briga de galos, luta de dedos e huka-huka (luta praticada pelos povos indígenas do Xingu e de algumas regiões de Mato Grosso) até a capoeira, tae kwon do e boxe. Enquanto aquelas se pautam pela tradição popular, estas sucumbiram aos ditames do código esportivo e passaram a organizar treinamentos, campeonatos e rankings.

Tudo indica que tenha sido a necessidade de derrotar adversários que favoreceu a criação e o aprimoramento das formas de combate. Historiadores relatam a existência de lutas de agarrar com o objetivo de derrubar o oponente há cerca de 5 mil anos na Grécia, em Roma, na China e no Egito. Práticas assemelhadas foram identificadas entre os povos autóctones da América e África.

O uso das mãos e dos pés para golpear, por sua vez, parece ter surgido por volta do século IV, quando monges chineses se inspiraram nos movimentos dos animais para elaborar técnicas de autodefesa.

No Oriente, o movimento de expansão territorial e a proteção à circulação de mercadorias tornaram necessário o recrutamento de homens que sabiam lutar com e sem armas. Enquanto isso, no Ocidente, os torneios envolvendo cavaleiros armados divertiam a nobreza medieval. Aos poucos, porém, foram alvo de controle e refinamento, transformando-se em simples simulações das condições de batalha.

O processo de mutação da violência dos guerreiros em gestos contidos e refinados dos cavaleiros também foi observado no Japão do século XIX. Os samurais compunham uma casta especial que dominava técnicas de combate sofisticadas. Levavam uma vida dedicada ao trabalho e à preparação para servir e proteger os proprietários de terras. Diante da reestruturação política e econômica do império e o monopólio do uso da força pelo Estado, os samurais perderam a função.

Suas formas de combate foram ressignificadas para constituir a gestualidade de diversas lutas orientais. Algo semelhante deu-se com o uso da espada. Com a propagação das armas de fogo em toda a Europa, apenas o florete, uma arma mais leve, permaneceu. Sua adoção para atividades meramente recreativas fez surgir a esgrima.

Na Inglaterra do século XV, disseminaram-se as lutas com o uso dos punhos. Eram ensinadas a qualquer pessoa em troca de pagamento. Exibições aconteciam em tablados elevados, à vista de todos, com o objetivo de captar interessados. Por volta do século XVIII, essas apresentações foram regradas e deram origem ao boxe.

As lutas se distinguem pelo conjunto de técnicas empregadas: agarrar, golpear e tocar o adversário com implementos. O objetivo do agarre é derrubar o adversário e imobilizá-lo. O sumô, o judô e o jiu-jítsu encaixam-se nessa categoria.

Dentre as lutas que utilizam golpes, em algumas somente os punhos são permitidos, enquanto outras usam também as pernas. O boxe pertence ao primeiro grupo e a capoeira ao segundo. Já as lutas com implementos têm como objetivo tocar o adversário, é o caso da esgrima.

Conhecer a gênese de uma luta e algumas das suas características é uma maneira de acessar os significados que lhe foram ou são atribuídos. Todavia, fora o aspecto curioso, isso é muito pouco para o desenvolvimento de um olhar crítico sobre o assunto.

Cada luta, enquanto produto cultural, transporta os signos dos grupos que a criaram e recriaram. Trata-se de um texto passível de leitura, significação e produção. A gestualidade, as vestimentas, os rituais e os instrumentos que lhe dão especificidade são, na verdade, as chaves para compreender as visões de mundo partilhadas pelos seus representantes. É justamente por isso que, na escola, devem ser tematizadas.

O trabalho pedagógico não pode reduzir-se ao ensino e fixação de técnicas. É fundamental o reconhecimento e leitura das características da prática e dos aspectos identitários dos seus representantes. Essa abordagem considera que qualquer representação é um processo de construção. Consequentemente, é importante que os alunos possam desconstruir as visões distorcidas que porventura tenham acessado.

Trata-se, inicialmente, de executar uma cuidadosa leitura dos múltiplos aspectos que envolvem a luta. Para tanto, convém ao professor e aos estudantes se municiarem de dados obtidos por meio de pesquisas, observações, entrevistas ou questionários; discutir as impressões sobre as informações coletadas e intercambiar pontos de vista, confrontando-os com as próprias vivências corporais realizadas nas aulas ou nas experiências extraescolares.

Também é interessante analisar os conteúdos disponíveis em filmes e documentários. A leitura dos rituais de saudação e a utilização de instrumentos durante a prática, por exemplo, fornecerão dados importantes para compreender os significados que são atribuídos pelos sujeitos.

Buscando uma melhor compreensão da luta em questão, alunos e educador poderão confrontar o que viram, leram e ouviram com informações recolhidas junto a pessoas diretamente envolvidas, o que ampliará as leituras realizadas. Entrevistar lutadores ou ex-lutadores sobre suas experiências servirá também para o professor sinalizar aos alunos se os sentidos manifestados pelos praticantes coincidem ou não com os da turma.

Tomemos a capoeira como tema de estudo. A simples proposição de vivências da roda, dos golpes e do canto das músicas transmitirá aos alunos um olhar superficial e exótico. É primordial discutir as conexões dessa luta com o passado (o que a capoeira expressava no seu contexto inicial de produção, sua origem entre o povo escravizado) e com o presente (a transformação sofrida/imposta pela indústria cultural e pelas mudanças sociais ocorridas após o fim da escravidão).

Reduzir o trabalho pedagógico à dimensão performática camuflará os problemas enfrentados pelos capoeiristas ao longo do tempo. Tematizar essa luta na escola implica desestabilizar o preconceito que envolve os modos de ser, pensar e agir dos seus representantes. E isso só será possível mediante a consulta a fontes de informação que extrapolam as tradicionalmente adotadas na escola.

Uma prática pedagógica baseada na tematização coleta o vulgar e o trivial para observá-los a partir de outro ângulo. Uma coisa é saber que a capoeira é uma produção do povo africano cativo; outra, bem diferente, é investigar a escravidão, o que isso significou e ainda significa, inserindo a prática da capoeira nesse contexto.

Tematizar a capoeira passa, necessariamente, pela sua compreensão enquanto traço identitário de uma população oprimida e dos modos como é abordada nos meios de comunicação.

*Marcos Neira é professor da Faculdade de Educação Física da USP e coordenador do Grupo de Pesquisas em Educação Física escolar


NEIRA, Marcos Garcia. Práticas Corporais: Brincadeiras, danças, lutas, esportes e ginásticas. São Paulo: Melhoramentos, 2014. (no prelo).

REID, Howard; CROUCHER, Michael. O Caminho do Guerreiro: O paradoxo das artes marciais. São Paulo, Cultrix, 2003.