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Barco no rio Amazonas
Embarcação navega o Rio Amazonas na altura do estado do Amapá

A discussão sobre qual é o maior rio do mundo atravessou séculos e só terminou nas últimas décadas do século XX. Essa dúvida refletia-se também nos livros didáticos de Geografia em que o Rio Amazonas aparecia como sendo o primeiro, segundo, terceiro e até mesmo o quarto rio mais extenso do mundo.


Essa discussão sobre o principal formador do Rio Amazonas e, por conseguinte, sua extensão perdurou por séculos e só foi definida na década de 1990, quando várias expedições científicas utilizando-se de novas tecnologias de sensoriamento remoto e geoprocessamento estiveram nos Andes para conferir em campo as interpretações das imagens de satélite para então definir sua nascente.

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Para compreender a discussão sobre a extensão e formação do Rio Amazonas, é preciso entender um pouco de sua história de ocupação pelos europeus.

Até fim do século XIX, o Rio Marañon era considerado o tronco principal da Bacia Hidrográfica Amazônica. Esse entendimento reflete de certa forma o processo histórico pelo qual o Rio Amazonas foi conhecido pelos colonizadores.

É fato que esse rio foi conhecido no sentido inverso da maioria dos rios, ou seja, da nascente para a foz. Isso porque os primeiros europeus a conhecer o Rio Amazonas foram os espanhóis que já estavam estabelecidos na região andina, no noroeste da bacia, desde os primeiros anos da colonização, enquanto os portugueses só chegaram à sua foz em dezembro de 1616.

Os aventureiros espanhóis, ávidos por riquezas minerais como ouro, prata e levados pelos rumores da existência de grandes jazidas desses minerais no interior da bacia, mais precisamente no país de La Canela e o El Dorado, faziam incursões rio abaixo.

Foi o caso da expedição de Francisco Orellana, que, desgarrada da expedição maior de Gonçalo Pizarro, desceu o Rio Amazonas pelo Marañon em 1541. A propósito, Orellana teve como relator Frei Gaspar de Carvajal, ao qual em seu relato afirma ter visto mulheres brancas liderando os índios no combate aos espanhóis. Foi em alusão a essas mulheres que Orellana chamou de Rio das Amazonas.

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A disposição dos rios que nascem no oeste e noroeste da Bacia Amazônica faz com que o deslocamento no sentido a jusante, ou seja, descendo o rio, conduza inevitavelmente ao Rio Marañon.

Como a colonização espanhola estava sendo intensificada nessa região andina, era evidente que as incursões para o “interior” da bacia acontecessem a partir das cabeceiras desses rios que deságuam no Rio Marañon.

O conhecimento do Rio Amazonas, no sentido da foz para nascente, só aconteceu no ano de 1637/1639, quando a expedição comandada pelo capitão Pedro Teixeira subiu o Rio Amazonas até Iquitos, no Peru.

Na descida, Pedro Teixeira teve como relator o padre Cristóbal de Acuña, que, em seu Novo Descobrimento do Grande Rio das Amazonas diz que: “O rio das Amazonas é o maior do Orbe” (mundo) e que o Marañon é seu principal formador.

Quanto mais os aventureiros/colonizadores passaram a conhecer o Rio Ucayali, mais aumentava as dúvidas sobre o principal formador do Rio Amazonas.

Foi o caso do jovem cientista francês Charles-Marie de La Condamine, que em missão científica na América do Sul desceu o Amazonas pelo Marañon, em 1743, e, ao passar pela confluência desse com o Ucayali, diz que: “Há motivos para dúvidas sobre qual dos dois é o tronco principal, do qual o outro não passa de uma ramificação (…) É verdade que o Ucayali nunca foi sondado e que se ignoram o número e o tamanho dos rios que recebe. Tudo isso me convence de que a questão não poderá ser inteiramente resolvida enquanto o Ucayali não for melhor conhecido (La Condamine, 1992, p. 62)”.

Na medida em que o Rio Ucayali ia sendo conhecido no sentido de sua nascente, mais aumentava a desconfiança de ser ele o principal formador do Rio Amazonas. No entanto, outra dúvida surgiu entre os estudiosos: qual é o principal formador do Ucayali, o Apurimac ou o Urubamba?

Essa discussão só foi resolvida a partir de meados do século XX com o advento das novas tecnologias e com os esforços das instituições de pesquisa dos governos brasileiro, peruano e boliviano, que em expedições conjunta definiram que o Apurimac é o formador do Amazonas.

A definição da nascente e extensão desse grande rio só aconteceu recentemente, quando cientistas do Projeto Amazing Amazon, pertencente ao Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) divulgaram, em 1995, resultados de pesquisas realizadas na nascente e ao longo de toda a sua extensão até a foz.

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Utilizando imagens de satélite e realizando análises comparativas dos aspectos físicos e químicos das águas e dos sedimentos coletados nas nascentes e na foz do Amazonas, os cientistas daquele instituto concluíram que o Apurimac é o principal formador do Amazonas.

Tal definição deve-se ao fato de que os sedimentos encontrados na nascente do referido rio foram os que mais se assemelharam aos sedimentos encontrados na foz do Amazonas. Assim, conseguiram localizar a nascente do Apurimac e definiram que o mesmo nasce no Peru, entre os montes Mismi com 5.699 metros e Kcahuich com 5.577 metros de altitude, situado ao sul da cidade de Cuzco e próximo do Lago Titicaca.

Coincidentemente, é o mesmo local onde a repórter Paula Saldanha e Roberto Werneck, na Expedição Pioneira à Nascente do Rio Amazonas, estiveram em 1994. Com essa definição do local da nascente do Amazonas, sua extensão até a foz foi medida em 7,1 mil quilômetros, passando a ser o maior rio do mundo em extensão.

No entanto, esses dados foram revistos em junho de 2007, quando os pesquisadores do Instituto Geográfico Militar do Peru, da Agência Nacional de Águas (ANA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do próprio Inpe definiram as vertentes onde nasce o Rio Amazonas.

Utilizando-se a mesma ferramenta de sensoriamento remoto, pesquisadores do Inpe mediram também a extensão do Rio Nilo, o mesmo que rivaliza com o Rio Amazonas a primazia de ser o maior rio do mundo.

O resultado da aplicação da metodologia mostra que o Amazonas tem 6.992,06 quilômetros de extensão, enquanto o Nilo tem 6.852,15 quilômetros. Portanto, o Amazonas é 140 quilômetros maior que o Nilo e, por conseguinte, o maior rio do mundo em extensão.

Drenando uma superfície estimada em 6,5 milhões de quilômetros, não é apenas a maior bacia hidrográfica do mundo, mas possivelmente um dos mais complexos sistemas fluviais e lacustres, notadamente na sua calha principal.

Localizada na faixa equatorial, essa bacia drena água precipitada nos dois hemisférios, cujos valores médios precipitados é da ordem de 2.200 mm/ano. Esse alto índice de chuva que se precipita na bacia faz com que o Rio Amazonas descarregue no Oceano Atlântico um extraordinário volume de água estimado em 209 mil m3/s, em média.

Outro dado que diferencia o Amazonas em relação a outros grandes rios é o grande volume de sedimentos que esse rio transporta. Dados recentes mostram que esse gigante despeja no Atlântico um volume de sedimentos estimados em 800 milhões de toneladas/ano.
Vale ressaltar que o mais importante não é ser o Amazonas o maior rio do mundo em extensão, mas conhecermos cada vez mais sua complexidade e importância para o equilíbrio ambiental regional e global. Sabe-se, por exemplo, que a Região Amazônica tem influência direta no índice de chuvas no Brasil Central e no litoral do Sudeste.

A falta de chuva nessas regiões está comprometendo o abastecimento das médias e pequenas bacias hidrográficas e, por conseguinte, a captação e distribuição de água para as populações, tornando-se um problema de Estado.

*José Alberto Lima de Carvalho é professor de Geografia da UFAM