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Exposição traz obra do cineasta ao MIS, em São Paulo

Para Tim Burton, arrumar um emprego nos estúdios Disney era algo tão natural quanto trabalhar em alguma montadora de veículos para um jovem do ABC paulista: ele nasceu em Burbank (Califórnia), onde Walt Disney (1901-1966) instalou a sede do grupo que, estruturado inicialmente para produzir filmes de animação, tornou-se um império global no setor de entretenimento.


Formado em artes visuais pelo California Institute of Arts, Burton obteve vaga como desenhista na “empresa da cidade”. Naquele momento, na virada dos anos 1970 para os 1980, o estúdio de clássicos como Branca de Neve e os 7 anões (1937), Fantasia (1940) e A Bela Adormecida (1959) tentava superar a crise criativa em que estava afundado, e da qual só começaria a sair na década de 1990, com o êxito de filmes como O Rei Leão (1994).


Leia atividade didática de Artes inspirada neste texto
Ano do Ciclo: 5o ao 7o
Possibilidade interdisciplinar: Língua Portuguesa
Tempo de Duração: 5 aulas
Objetivos de aprendizagem:
– Compreender as diferentes técnicas e processos utilizados por artistas visuais, bem como as referências que orientam seu trabalho
– Conhecer as etapas de criação que levam à realização de filmes para cinema
– Estudar a estrutura dos contos de fadas nas tramas dos filmes, como os de Tim Burton

Proposta de atividade: conhecer os primeiros curtas de Tim Burton e, se possível, visitar com os alunos a exposição O Mundo de Tim Burton no MIS-SP (ou entrar em contato, pela internet, com os materiais expostos).

1 No YouTube, estão disponíveis curtas que Tim Burton realizou na adolescência e na juventude. Alguns são produções caseiras, semelhantes às que seus alunos podem fazer hoje com o uso de câmeras de telefones celulares. Organize uma sessão que exiba os seguintes filmes, em ordem cronológica, e promova depois um debate para que os alunos manifestem suas opiniões:
Houdini: The Untold Story (1971): o próprio Burton aparece, mais ou menos com 13 anos, nesse fragmento de 30 segundos.
Doctor of Doom (1979): sátira a filmes de terror, protagonizada por Burton e por colegas da Disney (entre eles Brad Bird, que viria a dirigir Os Incríveis, Ratatouille e Missão: Impossível – Protocolo Fantasma). – Stalk of the Celery Monster (1979): desenho animado feito quando Burton cursava o California Institute of Arts.
Vincent (1982) e Frankenweenie (1984), produzidos pela Disney (leia o texto principal)

2 Explore, na visita à exposição ou no uso de materiais disponíveis na internet, as referências utilizadas por Burton, como os motivos góticos e surrealistas, a tradição dos filmes de terror, a literatura de mistério que lida com elementos sobrenaturais (como a obra de Edgar Allan Poe) e os contos de fadas.

Burton, fã de animação desde a infância, sonhava ajudar a Disney a reencontrar seu caminho. Enquanto colaborava em fracassos como O Cão e a Raposa (1981) e O Caldeirão Mágico (1985) – “os piores desenhos animados que o estúdio produziu”, segundo Burton –, ele propôs aos chefes tocar algumas ideias próprias em formato de curta-metragem.

Duas delas foram aprovadas e vieram à luz dentro da própria Disney: Vincent (1982), animação em stop motion sobre um menino que pensa ser o ator de filmes de terror Vincent Price, e Frankenweenie (1984), sobre um menino que, à moda do Dr. Victor Frankenstein criado pela escritora Mary Shelley, traz de volta seu cachorro do mundo dos mortos.

Qual não foi a surpresa de Burton, no entanto, quando os dois curtas, embora bem avaliados por sua qualidade e originalidade, foram considerados muito sombrios para o estilo Disney. Era a hora de fazer as malas, pensou o diretor, e explorar possibilidades longe dali. Veio então um convite para assumir, na Warner Bros., o longa infantil de ação e humor As Grandes Aventuras de Pee Wee (1985). Começava uma das mais bem-sucedidas carreiras do cinema americano, não só do ponto de vista artístico, mas também do comercial: os 17 longas-metragens que Burton dirigiu até agora –o mais recente foi Grandes Olhos (2014) – custaram, no conjunto, mais de 1,1 bilhão de dólares, mas arrecadaram, apenas em venda de ingressos nos cinemas de todo o mundo, mais de 3,8 bilhões de dólares.

A conta não inclui as vendas para vídeo doméstico e exibições na TV, e de produtos de merchandising (como bonecos, livros e cadernos), muito menos a arrecadação de outros filmes que ele apenas produziu, como O Estranho Mundo de Jack (1993). Em resumo: não há como falar do cinema contemporâneo de fantasia sem passar pelo universo sombrio e auto-irônico de Burton. A própria Disney reconheceu o erro de avaliação, e o levou de volta ao ninho para fazer Ed Wood (1994), Alice no País das Maravilhas (2010) e a versão longa-metragem de Frankenweenie (2012). A Warner, no entanto, foi quem se saiu melhor por abraçá-lo no início: os oito filmes que Burton realizou nesse estúdio incluem um filme-chave das últimas décadas, Batman (1989), que apresentou novos parâmetros para a adaptação de heróis dos quadrinhos pelo cinema, abrindo um filão ainda longe de se esgotar.

Diretor esteve no Brasil para abrir a exposição 'O Mundo de Tim Burton'
Diretor esteve no Brasil para abrir a exposição ‘O Mundo de Tim Burton’

Os filmes que mais caracterizam o universo de Burton têm na origem, além dos curtas-metragens, o seu segundo longa, Os Fantasmas se Divertem (1988), que reúne algumas marcas facilmente reconhecíveis: trama que se alimenta do contraste entre o mundo visível (o plano da “realidade”) e o da fantasia (no caso, uma dimensão sobrenatural, o “além”); personagens solitários, em desajuste social (nesse filme, representados pela adolescente interpretada por Winona Ryder); combinação entre elementos macabros e satíricos, mantendo a atmosfera na linha tênue entre o medo e o humor; com criaturas bizarras, ao mesmo tempo infantis e assustadoras.

Aos 58 anos, o diretor esteve recentemente no Brasil para abrir, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, a exposição O Mundo de Tim Burton, que foi montada pela primeira vez em 2009, no Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York. Eis, pois, o prestígio de que desfruta Burton no cinema contemporâneo: o de um artista, cujos desenhos, estudos, modelos e fotografias, muitos deles transformados em base para seus filmes, têm status independente como obras de arte. “Essas peças oferecem uma experiência íntima em relação à sua sensibilidade, talvez mais do que suas entrevistas e até mesmo do que seus filmes”, disse na ocasião o diretor do MoMA, Glenn D. Lowry. “Elas permitem que apreciemos a sua extensa gama de estilos expressivos e de domínio de diversas mídias, elas nos apresentam a suas influências artísticas e nos dão uma nova perspectiva de seus motivos góticos e surrealistas, de seus temas recorrentes de infância e de sua capacidade de escape pela imaginação.”

* Sérgio Rizzo é jornalista, crítico de cinema, doutor em Educação Audiovisual pela USP e professor