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Tarzan

Em maio de 1939, a revista   Saturday Evening Post convidou o jornalista e vencedor do Pulitzer, Alva Johnston, a eleger o maior escritor norte-americano vivo. A decisão deveria basear-se em três aspectos: o número de leitores do autor, seu sucesso em estabelecer um personagem na consciência mundial e a possibilidade de ser lido pela posteridade. Segundo Johnston, Edgar Rice Burroughs (1875-1950) poderia reivindicar o título, já que “nenhuma criação literária desse século possui um séquito tão grande quanto Tarzan”.


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Cem anos após sua publicação em livro, Tarzan corrobora a previsão do jornalista por meio de sua vitalidade e relevância em nosso imaginário, seja nas muitas adaptações  – no cinema e nos quadrinhos –, seja nas reedições dos romances de Burroughs: como é o caso da edição cuidadosa e anotada que a editora Zahar acaba de lançar.

Leia atividade didática de Literatura inspirada neste texto

Após ler o primeiro romance de Tarzan, discuta com os alunos as questões a seguir.

1. Compare versões Assista com os alunos Greystoke – A Lenda de Tarzan, o Rei da Selva (1984), bem como a versão animada dos estúdios Walt Disney, Tarzan, de 1999. Discuta as similaridades e diferenças entre as duas versões e a história do livro, questionando os motivos que poderiam ter levado a tais alterações do original.

2. Análise de imagens Reúna a edição da editora Zahar (com ilustrações de Hal Foster) e, por exemplo, a edição em quadrinhos da editora Devir: Tarzan – A origem do homem-macaco e outras histórias, ilustrada por Joe Kubert. Compare o traço dos dois artistas, bem como discuta o estilo de cada um inserido em sua respectiva época. Kubert é admirador confesso de Foster, o que pode servir de gancho para um debate sobre influências e continuidade da proposta de trabalho de um artista por outro mais novo.

3. Heróis Discuta a importância do arquétipo do herói em nossa sociedade e no modo como narramos nossas histórias. Por que um filme como Os Vingadores alcançou a terceira maior bilheteria da história do cinema e fez com que toda uma onda de filmes de super-heróis obtivesse sucesso? O que buscamos nos heróis? Por que nos identificamos com eles? Ainda existe espaço para ideias como heroísmo e aventura em nosso dia a dia? Peça aos alunos que compartilhem suas experiências e preferências com filmes de super-heróis e tentem explicar qual o seu apelo.

Guiado pelo desejo de uma existência descompromissada, ao ar livre, Burroughs passou o início da vida adulta como nômade: foi caubói em Idaho, garimpou ouro no Oregon, integrou a Sétima Cavalaria do Arizona e foi vigilante ferroviário em Salt Lake City, capital do estado de Utah.

Entrementes, a vida adulta e a realidade industrial norte-americana deram fim a esse primeiro impulso, o que fez com que o futuro escritor procurasse outro modo de ganhar dinheiro. Depois de algumas tentativas frustradas, finalmente Burroughs esbarrou em algumas revistas de pulp fiction, e a ideia de que ele mesmo poderia escrever histórias como aquelas começou a tomar forma.

Tendo o nome derivado da polpa de madeira usada na mistura de seu papel de baixa qualidade, as pulp fictions eram publicações baratas, bastante populares na primeira metade do século XX, dedicadas essencialmente a histórias de fantasia e ficção científica. Ainda que malvistas por causa de seu conteúdo supostamente não literário, escritores do porte de Raymond Chandler, Isaac Asimov e Henry Rider Haggard iniciaram suas carreiras em publicações como essas.

Tarzan, o Filho das Selvas foi a terceira história que Burroughs submeteu para publicação e seu sucesso excedeu todas as expectativas do autor estreante (na época com 37 anos), e de seus editores.

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O personagem fez sua primeira aparição na edição de outubro de 1912 da revista Pulp All-Story, ocupando quase a totalidade. Um dos editores da publicação, Thomas Metcalf, preferiu estampar a história na íntegra, pois, segundo ele, não conseguiu parar de ler a fantástica narrativa de Burroughs.

As vendas foram expressivas e a história publicada em livro em 1914, o que abriu a possibilidade de o escritor começar a redação do que viriam a ser suas mais de 20 continuações.

No cinema
Talvez as encarnações mais famosas de Tarzan, motivo que explica, em parte, sua longevidade, sejam as cinematográficas. O primeiro filme, Tarzan, o Homem Macaco, foi produzido em 1918, ainda na época do cinema mudo. Foi estrelado por Elmo Linkenhelt, um dos atores preferidos do célebre cineasta americano D.W.  Griffith, tendo já atuado em três de seus filmes clássicos, Intolerância, O Nascimento de uma Nação  e A batalha de Elderbush Gulch. Nesse último, numa cena de luta, sua camisa foi acidentalmente arrancada, exibindo seu físico e assim motivando o convite para que interpretasse o herói de Burroughs.

Nos anos 1930, o ator que realmente celebrizou o personagem nas telas foi Johnny Weissmuller. De família alemã, residente na Romênia, Weissmuller chegou aos Estados Unidos aos 7 meses de idade e teve uma carreira esportiva excepcional, estabelecendo recordes mundiais como nadador.  Sua estreia no cinema aconteceu em 1932, com Tarzan, o Filho das Selvas, seguindo-se mais 11 filmes em que encarnava o personagem. Já nos tempos do cinema sonoro, foi o responsável por celebrizar o grito do homem-macaco, que daí em diante todos os atores precisaram imitar.

Alguns outros clichês associados à imagem de Tarzan – e inexistentes na obra original – como o diálogo “mim Tarzan, você Jane” e a fiel companheira do herói, a macaca Cheeta (no livro, Sheeta, o leopardo, seu inimigo) remontam a esse filme.

Burroughs, entretanto, jamais ficou satisfeito com as caracterizações cinematográficas de sua maior criação. Na sua visão, Tarzan era, acima de tudo, inteligente, enquanto os filmes mostravam-no como um idiota incapaz de articular pensamentos corretamente ou de se comportar na civilização. Não obstante, o grande sucesso dos filmes ajudou-o a licenciar estátuas, trajes de banho, jogos, sorvetes, chicletes e mais uma enorme gama de produtos com a marca, que o tornou um mestre da multimídia antes mesmo de o termo ser concebido.

A primeira adaptação mais alinhada às ideias de seu criador, e com melhor recepção crítica, deu-se três décadas após o falecimento do autor. Em 1984, estreia Greystoke – A Lenda de Tarzan, o Rei da Selva, estrelado por Christopher Lambert. O filme possui estética e história mais naturalistas, menos infantilizadas, bebendo do material escrito por Burroughs e, ao mesmo tempo, tentando trazer para a película parte da sensibilidade e do aspecto científico da década em que foi rodado. Greystoke restabelece Tarzan como um personagem inteligente e consegue retratar de maneira mais verossímil sua fracassada tentativa de adaptação ao mundo civilizado. Foi indicado a três Oscar, incluindo Melhor Roteiro Adaptado.

A animação Tarzan (1999), da Disney, marcou um novo início para o filho das selvas nos cinemas, apresentando-o para uma nova geração e tendo como inspiração tanto Greystoke – A Lenda de Tarzan quanto o romance original. Contudo, algumas liberdades foram tomadas, fazendo com que Tarzan fosse adotado por gorilas e transformando seu primo, o nobre William Cecil Clayton, num caricato vilão.

Em 2013, a primeira versão em 3D do personagem, Tarzan 3D: A Evolução da Lenda, chegou aos cinemas, sendo mal recebida pela crítica e pelo público, caindo rapidamente no esquecimento.

O livro
As fontes de inspiração reconhecíveis na história mais famosa de Burroughs são muitas: do mito romano de Rômulo e Remo ao Mogli de O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, passando por relatos da África colonial do fim do século XIX, como As Minas do Rei Salomão, de Henry Rider Haggard.

Considerada a primeira aventura africana publicada em inglês, o livro de Haggard teria sido um dos grandes motivos que levaram Burroughs a escrever Tarzan, o Filho das Selvas. Não obstante tantas influências, o livro de Burroughs alcança a posteridade por seus próprios méritos, por meio de uma enorme dose de aventura e de sua “incredibilidade prática”, como afirmou o escritor de ficção científica H.G. Wells.

A pitoresca história de vida de Tarzan chega até nós por meio de um narrador que a ouviu de “alguém que não tinha nenhum interesse em contá-la a mim, ou a qualquer outro”. Nos capítulos iniciais do livro desenvolve-se o trágico destino de Lorde Greystoke e Lady Alice, pais de Tarzan, em meio a conspirações numa embarcação em alto-mar.

Logo a aventura marítima transfigura-se em um relato de luta pela sobrevivência, quando o casal é abandonado à própria sorte numa praia desabitada da costa africana. Lá, os dois se veem obrigados a construir uma casa na árvore numa precária tentativa de sobrevivência. Meses depois, já alojada em uma resistente cabana, Lady Alice dá à luz ao protagonista e, de maneira conveniente para o enredo, os Greystoke não tardam a falecer.

A partir do quarto capítulo passamos a acompanhar Tarzan, o filho das selvas – adotado por Kala, a antropoide –, em seus anos de formação. Ele cresce em meio aos símios e é considerado um fracote, até que seu desenvolvimento mental torna-se mais rápido, fazendo com que ele surpreenda a todos com sua astúcia. Ainda assim, como humano, seu tamanho e força não eram equiparáveis aos de seus irmãos, pois, enquanto os antropoides estavam plenamente desenvolvidos, Tarzan ainda era apenas um garoto.

É possível cogitar ainda a presença do escritor Hans Christian Andersen e de seu O Patinho Feio entre os retalhos da colcha narrativa que Burroughs compõe. Contudo, antes de se tornar um belo cisne – ou, no caso de Tarzan, o rei da floresta –, o heroi precisa passar por uma série de ritos e desafios: aprender a ler e escrever em inglês, de maneira autodidata, a usar a faca de caça para ter chances de se sair vitorioso na selva e deparar-se pela primeira vez com seus semelhantes na tribo de canibais de Kulonga.

Valendo-se de uma coincidência digna dos melhores livros de aventura, Burroughs faz com que a tripulação de uma nova expedição – do mesmo modo como ocorrera aos pais de Tarzan – seja vítima de um motim e acabe abandonada na altura exata de sua cabana. Aqui a “incredibilidade prática” do autor atinge seu ápice, já que juntamente com a belíssima garota (Jane) que será o grande amor de Tarzan, desembarca o nobre William Cecil Clayton, primo do heroi e herdeiro do título de Lorde Greystoke.

As exageradas coincidências e o retrato quase caricatural de alguns personagens não deixam de ser uma marca da pulp fiction , e pode ser justificado pelo tipo de desenvolvimento da narrativa, em que cada indivíduo parece ter um papel muito claro na engrenagem da história.

Dessa maneira, Jane representa a mocinha em perigo; Clayton o nobre abnegado; Esmeralda, retratada de modo um tanto preconceituoso, é a ignorante que serve de alívio cômico; já o professor Porter e seu assistente, Mr. Philander, cumprem o mesmo papel de Esmeralda, mas no polo oposto – o excesso de conhecimento é que se torna o elemento cômico.

Contudo, o personagem decisivo para o destino de Tarzan não pertence a essa comitiva. A figura do sábio que ajuda o heroi, propiciando que ele alcance seu destino e se transforme, é representada pelo tenente da Marinha francesa D’Arnot. A partir daqui Tarzan seguirá em busca de sua identidade e humanidade, gancho ideal para que suas aventuras prossigam por anos a fio.

Personagem-chave da cultura mundial do século XX, Tarzan chega, em 2014, a seu centenário de publicação em livro, reafirmando sua relevância por meio dos valores imbuídos em sua história, da aventura e do heroísmo: ideais necessários ao imaginário humano, e cada vez mais distantes numa sociedade superorganizada.

*Jornalista e tradutor, com artigos sobre literatura e música publicados na revista Rolling Stone e no Correio Braziliense. Colabora com o Instituto Moreira Salles e com as editoras Cosac Naify, Globo e Zahar, para a qual traduziu e redigiu a apresentação de Tarzan, o Filho das Selvas.