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Dançarinos de frevo

O frevo é um dos mais peculiares gêneros musicais brasileiros. O ritmo, que foi reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), nasceu na cidade do Recife, no fim do século XIX, com uma mistura de dobrados, maxixe e polca.


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Tem também uma origem bastante peculiar: é a única música popular urbana do Brasil que não surgiu de manifestações folclóricas ou é derivação de algum ritmo africano. Não há frevos de domínio público. Sabe-se o nome do autor de cada um dos frevos que existem. Também, olha quanta peculiaridade, embora tenha saído das camadas mais humildes da população do Recife, mesmo nos primórdios, não há analfabetos entre os pioneiros do ritmo. Por um motivo: compositor de frevo tem de saber ler música. O autor de frevo (no caso, o frevo de rua, a versão instrumental) tem de entender pelo menos de rudimentos de composição, arranjo e orquestração.

Leia atividade didática de Língua Portuguesa inspirada neste texto

Anos do ciclo: 3° ao 9°
Área: Língua Portuguesa e Artes (Dança)
Possibilidade interdisciplinar: História e Educação Física
Duração: 3 a 5 aulas

Como vimos, Frevo é instrumental, é canto, é dança. E para “frever”, ou seja, ferver – é preciso “di cum força” Por Márcia Lagua de Oliveira, doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP, autora de Arte e Construção do Conhecimento na Emia (Fapesp/Casa do Psicólogo)

1)Construir repertório

É preciso muito fôlego, mas o ritmo é contagiante e garante a animação. Provavelmente os alunos conheçam Banho de cheiro, de Carlos Fernando, e um sucesso na voz de Elba Ramalho: “Eu quero um banho de cheiro/eu quero um banho de lua/eu quero navegar”. Depois desse frevo bem atual, vamos ouvir um dos primeiros frevos-canção gravados Borboleta não É Ave, de Nelson Ferreira e J. Borges Diniz (1922). Ela pode ser acessada no site: www.culturabrasil.com.br/playlists/velho-frevo-novo-2, onde está a gravação original de Baiano para a “Casa Edison – Rio de Janeiro”: “Borboleta não é ave,/Borboleta ave é,/Borboleta só é ave/Na cabeça da muié…”. Que sentido tem, para os alunos, cada uma das letras ouvidas? Como interpretam os textos? Que diferenças percebem ao ouvir gravações de épocas diferentes? Que tema ou temas percebem, quais destacam? Lembrar ainda que em 1922 era através do rádio e de gravações em disco que os artistas tinham suas obras musicais divulgadas.

2)Frevo improvisado

Dançar o frevo permite muita improvisação, que tal dançar e cantar as duas músicas que já conhecemos? Vamos soltar nossos gestos e passos de forma bem livre, contagiados por nossa escuta. A improvisação também faz parte do frevo. Que tal um guarda-chuva para uma maior autenticidade de nossas danças?

3)Passos tradicionais

Num próximo desafio, vamos assistir ao DVD Nove de Frevereiro, de Antonio Nóbrega. (gravadora independente). Podemos assistir às variadas coreografias e depois comparar com a nossa dança, com os passos que criamos livremente e, assim, enriquecer o nosso repertório com outras gravações deste gênero musical e com os passos tradicionais do frevo: dobradiça, tesoura, locomotiva, ferrolho, parafuso, ponta do pé e calcanhar, saci-pererê, abanando, caindo das molas, pernada.

4)Conhecimento prévio

Quem conhece outros frevos? Cantados, instrumentados ou instrumentados e cantados? Quem tem em casa gravações que possam ser compartilhadas com o grupo?

5)Diálogo com as artes

A riqueza de movimento e cores se transformou em imagens criadas por diferentes artistas plásticos. Registrar com fotos e desenhos nossas produções, criar páginas para as letras aprendidas, pode enriquecer nossos conhecimentos, nossa frevência. Com todo o material pesquisado podemos criar um documento a ser compartilhado com o restante da escola.

Claro que exceções existem. O olindense Lídio Francisco da Silva, o Lídio Macacão (1892-1961), foi um dos grandes autores de frevo, mesmo sem saber ler. Um de seus frevos de rua, Três da Tarde, é um clássico do repertório do carnaval pernambucano (inspirado no carrilhão do prédio em que funcionava o Diário de Pernambuco, no centro do Recife. Quem passou a obra para partitura foi o maestro Lafayette Lopes, no mesmo dia em que idealizou a melodia no pensamento.

O arranjo foi feito pelo maestro da banda do 14º Regimento de Infantaria do Exército. A primeira gravação de Três da Tarde é da Orquestra Tabajara, do maestro Severino Araújo (um pernambucano de Limoeiro do Norte). Quando comentava sobre o fato de suas músicas serem escritas por terceiros, Lídio Macacão tinha uma explicação: “É como se a pessoa mandasse outra escrever uma carta pra ela. A carta foi escrita por outro, mas o conteúdo é de quem mandou escrever”.

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Nas últimas décadas do século XIX, era comum o desfile de bandas marciais pelas ruas do Recife tendo à frente grupos de capoeiras que exercitavam suas coreografias adaptando-as à música. As principais bandas nas últimas décadas do século XIX eram chamadas de O Quarto (4º Batalhão de Artilharia) e Banda do Corpo da Guarda Nacional, a Espanha, por ter como maestro o espanhol Pedro Francisco Garrido. Os capoeiras seguiam a banda de sua predileção.

Os músicos das bandas marciais animavam o carnaval e os capoeiras aprontavam diante das orquestras durante as animadas folias nas ruas. Algumas teorias sustentam que foram os capoeiras os influenciadores dos dobrados, das polcas e do maxixe para que fossem aos poucos mudando de andamento, misturando-se e formando um novo gênero, o frevo. Simultaneamente, as manobras realizadas por eles deram origem aos passos com que se dança o frevo, palavra cuja etimologia vem da corruptela do verbo ferver. Isto é uma verdade, mas apenas parte da verdade.

As ruas estreitas e as pontes do centro do Recife também contribuíram tanto para formatar a música quanto para desenvolver a dança. Mário Sette, escritor e cronista pernambucano (1886-1950), em artigo para o Jornal do Commercio, do Recife, ressalta esse fator como contribuição ao surgimento do gênero e da dança.

A turba espremia-se para atravessar as pontes que cruzam o Recife, e aí a frevança era “di cum força” (expressão dos anos 1920) e, para evitar ser pisoteado, o folião abria os braços e reinventava passos. Os músicos aceleravam o andamento etocavam com o máximo da potência que seus pulmões permitiam para controlar a multidão com as marchas-frevo que executavam. Note-se que, até então, a música ainda não tinha esse nome. O frevo designava a folia, o frege, a multidão frevendo. Dizia-se “Óia o frevo”, quando se avistava algum bloco conduzindo foliões.

A multidão que seguia clubes de pedestres pelas ruas dançava num frenesi que de longe parecia que fervia, ou “frevia”. A palavra foi encontrada pela primeira vez na imprensa pernambucana no dia 9 de fevereiro de 1907, no Jornal Pequeno, uma descoberta do pesquisador Evandro Rabello. Ficou convencionado que a data seria o marco zero do frevo. Tanto que o centenário do frevo foi comemorado em 9 de fevereiro de 2007. Mas o frevo é bem anterior.

Em 1888, já existia o Clube das Pás de Carvão, formado por carvoeiros que trabalhavam no porto da capital pernambucana. Também é mais ou menos dessa época o Clube Carnavalesco Mixto Vassourinhas, cujo hino, atribuído a Joana Batista e Mathias da Rocha, é igualmente o hino não oficial do carnaval pernambucano.

A música passou a ser chamada de frevo, ou seja, o gênero musical, por volta do fim dos anos 1920. O primeiro frevo gravado, ­Borboleta Não É Ave (1922), de Nelson Ferreira e J. Diniz, no rótulo do disco (interpretado por Baiano e o Grupo de Pimentel) é chamado apenas de “marcha”.

No fim dos anos 1970, até o advento da axé music em Salvador, o Rio de Janeiro e o Recife eram as únicas cidades do Brasil a possuir uma música exclusiva para o carnaval. Na primeira, o samba e as marchinhas. No Recife, além do frevo, havia o maracatu, o caboclinho, o bumba meu boi, o urso e o afoxé. O frevo predominou entre as demais (embora o maracatu ainda seja muito forte), em suas três manifestações: o frevo de rua (o instrumental), o frevo-canção (cantado e sempre com letra) e o frevo de bloco (também com letra, porém com andamento mais cadenciado, lembrando a marcha-rancho carioca).

Até o começo dos anos 1950, as gravadoras do Sudeste, sobretudo do Rio, monopolizavam a comercialização dos discos de frevo, cuja produção era quase toda canalizada para o mercado pernambucano. Estrelas da era do rádio como Francisco Alves, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Mario Reis e Linda Batista gravavam os sucessos do carnaval de Pernambuco, os quais só eram tocados na Rádio Clube, que reinou sozinha no Recife até a criação da Rádio Jornal do Commercio, em 1948. Em 1953, José Rozenblit, ­comerciante recifense, decidiu prensar um disco de frevo, pois, dizia ele, sentia que o fato de a música local ser lançada por gente de outras terras feria seu orgulho pernambucano.