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Em tempos de crise ambiental é surpreendente que se fale tão pouco, ou tão mal, da opção pela energia nuclear. Afinal, as centrais nucleares não têm emissões diretas de gases de efeito estufa, ao contrário das termoelétricas a óleo, gás ou carvão.


Uma das razões é que pesa sobre ela  a imagem negativa em razão dos graves acidentes de Chernobyl, em 1986, na Rússia, e mais recentemente de Fukushima, no Japão. Pouco importa que o primeiro tenha sido fruto de manobras irresponsáveis e o segundo causado por um forte terremoto seguido de um tsunami de rara violência.

O trecho acima contém uma palavra-chave no debate: imagem. Não temos contato direto com centrais nucleares e construímos nossa percepção dos riscos associados a essas instalações a partir de informações e análises de terceiros.


Leia atividade didática de Física baseada neste texto
Competências: Apropriar-se de conhecimentos da Física para, em situações-problema, interpretar 
e avaliar intervenções científico-tecnológicas
Habilidades
: Avaliar possibilidades 
de geração, uso 
ou transformação 
de energia em ambientes específicos, considerando implicações éticas, ambientais, sociais 
e/ou econômicas Avalie os esforços e os custos para geração de energia em contraposição aos limites da produção e do consumo energético
Por Djalma Nunes da Silva, doutorando em Ensino do Instituto de Física da USP

Entre as muitas razões para se discutir as questões ambientais, certamente, estão as implicações entre as expectativas por qualidade de vida e os recursos materiais e energéticos para satisfazê-las. Quais os limites do consumo? É nessa perspectiva que se insere o texto de Jean Remy Davée Guimarães, cuja leitura suscitará o debate sobre os prós e os contras da utilização da energia nuclear. Nele, é importante que exista 
a contextualização de conteúdos 
da Física relativos a ele. Vejamos algumas possibilidades:

1) Organize a classe em dois grupos, encarregando um deles de defender a implantação de uma usina nuclear e outro de contestá-la.

2) Proponha que cada grupo destaque no texto os argumentos que poderiam ser empregados para defender ou atacar a posição assumida.

3)Sugira a leitura de outros artigos para aprofundar o tema.

4) Agende o debate Energia Nuclear

OU

1) Peça aos alunos que escrevam o que acham que é energia nuclear

2) A partir da análise das concepções dos alunos, problematize-as de modo a aproximá-las do conceito científico.

OU

1) Solicite que realizem uma pesquisa bibliográica sobre o funcionamento das usinas nucleares, das hidraulicas e das térmicas, identificando suas semelhanças e diferenças

2) Debata com a turma:

a) Por que o autor do artigo sustenta que “não existe energia limpa, a não ser nas campanhas publicitárias”?

b) A partir da pesquisa, quais seriam as melhores opções energéticas?

Mesmo que as estatísticas mostrem que a produção de 1 quilowatt de energia a partir do átomo tem menos impacto sobre a morbidade ou mortalidade do que aquela a partir de petróleo, sem nem sequer mencionar os efeitos sobre o clima, continuaremos temendo mais a primeira do que a segunda. Por quê?

Há vários motivos. Tememos mais o risco do desconhecido. Nascemos num mundo organizado em torno do petróleo, cheio de carros, caminhões e postos de gasolina que compõem uma paisagem que nos é familiar. Já o ciclo nuclear é invisível no dia a dia, surge na mídia quando há grandes desastres, e os processos envolvidos são complexos e difíceis de explicar ao público em geral.

Acidentes ocorrem em todas as atividades humanas. Plataformas afundam, refinarias e postos de gasolina pegam fogo e grandes vazamentos de petróleo no mar são frequentes. Mas justamente por serem relativamente rotineiros, nem ao menos lembramos qual foi o último acidente.

Ao contrário, lembramos os últimos grandes acidentes nucleares, mesmo que tenham matado menos gente. A nossa percepção, moldada no decorrer de uma longa evolução, registra o que é brusco, raro.

Ciclo produtivo

Toda forma de gerar energia tem um custo financeiro, ambiental e de saúde. Não existe energia limpa, a não ser nas campanhas publicitárias: existem as mais ou menos sujas. Comparar custos e impacto ambiental de diferentes opções é complexo, e envolve questões éticas incômodas.

O mesmo se aplica a decisões individuais mais comuns. Por exemplo, temos satisfação em comprar um produto atraente e muito barato, mesmo que tenha sido produzido num país distante por pessoas que nunca veremos.

Se soubéssemos que o tal produto foi fabricado em condições desumanas e exigiu a extração predatória e não sustentável de recursos naturais, talvez hesitássemos. Mas a maioria esmagadora dos consumidores não tem a menor ideia de como são produzidos os itens que consomem.

A reação natural é optar pelo menor preço, claro. Nessa hora, um economista dirá que o valor que você aceita pagar a mais pelo produto (ou não) é uma medida da importância que você atribui (ou não) a valores subjetivos como justiça, equidade, solidariedade, sustentabilidade etc.

Note que para tomar uma decisão bem fundamentada você precisa conhecer o que se chama de ciclo produtivo. Quem mora na roça sabe o que é isso: para fazer um simples bolo de fubá, foi preciso desmatar uma área de floresta, arar o solo, plantar a semente do milho, rezar para chover, capinar, colher o milho, debulhar, moer, peneirar, secar, adicionar -outros ingredientes cuja produção também tem seu próprio e laborioso ciclo produtivo, assar o bolo com lenha ou gás e se livrar dos restos do processo.

Cada uma dessas etapas tem custos em dinheiro e traz riscos facilmente perceptíveis à saúde: cortes, luxações, fraturas, picadas de animais peçonhentos, queimaduras, insolação etc.

Há também os menos perceptíveis, associados a exposições crônicas, como catarata e câncer de pele, provocados por tempo excessivo e prolongado ao sol, câncer de pulmão por inalação regular de fumaça de queimada ou do fogão a lenha e por aí vai. Nosso economista ainda conseguirá calcular o preço de tudo.

Adoeceu? Há o custo do tratamento e o dinheiro que o doente não ganhou, enquanto não podia trabalhar. Piorou e morreu? Há o custo do enterro e o custo dos anos de serviço que o morto naturalmente não poderá cumprir, traduzido na forma de uma eventual pensão para os familiares.

Continua fácil calcular. Mas se a doença ou morte acabar desestruturando completamente a família em questão, será possível calcular o custo de suas consequências?

Petróleo X Urânio

Parece que esquecemos o tema inicial do artigo, mas não: avaliar os custos e riscos de produzir um bolo de fubá ou 1 quilowatt de energia elétrica passa pelos mesmos caminhos e envolve a análise de um longo ciclo produtivo e dos riscos associados a todas as suas etapas, desde a extração das matérias-primas até a gestão dos resíduos sólidos, líquidos e gasosos produzidos.

No caso do petróleo, os riscos da extração e do processamento desse minério líquido são familiares e parecem até naturais, afinal, estamos falando de substâncias voláteis, inflamáveis e explosivas. Quando explodem de forma controlada dentro do motor de nossos carros, elas os impulsionam e achamos o máximo, mas quando vazam e contaminam rios, por exemplo, não achamos a menor graça.

Já no caso do ciclo nuclear, nada é familiar nem parece natural, embora sua parte mais visível, a central nuclear, seja um tipo de termoelétrica.

Na termoelétrica a gás ou óleo, a combustão desses aquece água numa caldeira e o vapor formado aciona as pás de uma turbina gerando energia elétrica.

Depois, o vapor é resfriado com água ou ar, condensando-se e sendo novamente aquecido, num circuito fechado.A central nuclear funciona segundo o mesmo princípio, mas com outro combustível, o urânio-235.

O minério de urânio, natural, contém muito mais urânio-238 do que 235, mas apenas o último pode ser fissionado e gerar grandes quantidades de calor.

Outra semelhança entre termoelétricas a óleo ou urânio é sua abundante produção de resíduos. Sempre soubemos da fuligem e dos produtos menos visíveis e cancerígenos emitidos na combustão dos derivados de petróleo.

Mas os ignoramos diante da percepção de que o CO2 se acumula na atmosfera, altera o clima do planeta e nos reserva um futuro mais quente, incerto e sombrio. Ponto para as usinas nucleares, que não emitem fuligem ou CO2? Sim e não.

Não emitir carbono é uma vantagem, mas se uma termoelétrica convencional pode ser desligada, fechando-se o suprimento de combustível, desligar uma termoelétrica nuclear não é tão simples.

Por um lado, a fissão do urânio só pode ser interrompida progressivamente, e a radioatividade que ela já gerou não pode ser desligada. Isso significa que mesmo que não gere mais energia suficiente para assar um simples bolo de fubá, o reator nuclear deve continuar sendo refrigerado por um bom tempo após interromper sua produção.

Qualquer coisa que impeça a refrigeração pode levar- ao derretimento- das barras metálicas que contêm o urânio e seus produtos de -fissão, que podem assim acabar liberados para a atmosfera, como ocorreu em Fukushima.

Embora uma central nuclear- não possa nunca explodir como uma bomba atômica, a liberação acidental de material radioativo na atmosfera pode ter consequências graves para a saúde de funcionários e habitantes da região, o que força a evacuação ao seu redor.

Ora, direis, a poluição radioativa tem data de validade, enquanto o CO2 é eterno. É verdade, mas alguém que sofreu um acidente relativo ao ciclo do petróleo dificilmente será discriminado por isso.

Já as vítimas de acidentes nucleares, além das eventuais sequelas de saúde, têm de suportar a discriminação e a exclusão social. Algumas foram apenas irradiadas, outras foram contaminadas e podem irradiar quem chegar perto.

Como não se sabe distinguir uma coisa da outra e não se carrega um detector de radiação na mochila, consideram-se todos como contaminados.

Esse talvez seja o efeito mais perverso de um acidente nuclear, e um dos mais difíceis de avaliar. Afinal, quanto valem a culpa e o sofrimento?

Nosso economista de plantão dirá que essas variáveis não são quantificáveis, enquanto não se transformarem em sintomas ou fatos concretos. Portanto, desconfie de decisões tomadas apenas em razão de custos. Nem tudo é calculável, e o cálculo estará sempre contaminado por interesses e crenças. Preço é uma coisa, valor é outra.

*Jean Remy Davée Guimarães é professor associado do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (UFRJ)

Publicado originalmente em Carta na Escola