COMPARTILHE
Carl Sagan
Do início de sua carreira, em 1950, até o seu falecimento, em 1996, pesquisou a vida fora da Terra

O recente lançamento da série Cosmos, apresentada pelo astrônomo Neil deGrasse Tyson, tem reavivado o interesse pela antecessora do mesmo nome, criada pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996) e que foi ao ar no início dos anos 1980. Defensor do método científico e do ceticismo como premissas para o conhecimento da natureza, Sagan deixou um legado de ideias e previsões refletidas em centenas de trabalhos científicos e de divulgação. Convidamos o leitor a fazer um breve percurso pela obra desse cientista de pensamento esclarecido e opiniões fortes que, por meio de uma linguagem simples e direta, conseguiu despertar em várias gerações o interesse pela ciência.


Leia atividade didática de Física inspirada neste texto
Competências: apropriar-se de conhecimentos da Física para interpretar intervenções científico-
tecnológicas

Habilidades: caracterizar causas ou efeitos dos movimentos de objetos ou corpos celestes e utilizar leis físicas para interpretar processos naturais ou tecnológicos inseridos no contexto da astronomia

Em Sala/Viagem ao universo
Explore a curiosidade 
e convide os seus alunos a colonizar a Lua e Marte

1 Peça para cada aluno listar cinco coisas ou informações consideradas importantes para serem transmitidas a uma suposta civilização extraterrestre inteligente. Discuta na sala de aula as propostas que forem mais sugeridas.

2 Divida a turma em 13 grupos e atribua a cada um a tarefa de assistir a um episódio da série Cosmos original e um episódio da nova versão da série e escrever um breve resumo de cada episódio assistidos. Peça para cada grupo expor na sala de aula o conteúdo dos episódios e as semelhanças e diferenças entre as duas séries, ressaltando o que gostaram mais e menos.

3 Peça para os alunos pesquisar sobre o clima do planeta Vênus e sobre os fenômenos que poderiam levar à ocorrência de uma condição climática semelhante na Terra.

4 Divida a turma em dois grupos. Um deles terá a missão de colonizar a Lua e o outro, Marte. Peça para cada grupo listar os principais problemas tecnológicos e logísticos que deverão enfrentar. Discuta na sala de aula possíveis soluções.

A série Cosmos original teve um sucesso sem precedentes na história do documentário. Com uma linguagem desprovida de tecnicismos, mas sem perder o rigor científico, Sagan nos conduzia por meio de uma jornada pelo mundo da astronomia e de sua importância para a evolução do pensamento humano e da ciência. Apresentava os fatos históricos que tinham mudado os paradigmas do conhecimento, abordando questões como a possibilidade de vida em outros mundos, desvendando os segredos do nosso Sistema Solar, e nos convidando a refletir sobre a nossa própria existência e a nossa posição no Universo.

A série tornou Sagan, que já era considerado um cientista e divulgador, mundialmente conhecido. Do início da sua carreira científica em 1950 até seu falecimento em 1996, publicou mais de 280 trabalhos científicos, em geral vinculados à exploração do Sistema Solar e ao estudo da vida fora da Terra. Previu corretamente as altas temperaturas na superfície do planeta Vênus produzidas pelo efeito estufa e, na mesma linha de raciocínio, teorizou sobre as consequências de uma guerra nuclear em grande escala: o chamado inverno nuclear. Ele também previu que a lua de Saturno, Titã, possuiria lagos de metano na sua superfície, e que Europa, um satélite de Júpiter, teria um oceano de água subterrânea, ambos fatos confirmados posteriormente por sondas espaciais. Foi pioneiro na interpretação dos fenômenos atmosféricos na superfície de Marte, e um dos primeiros a propor a ideia da “terraformação”: modificar um ambiente em escala planetária para torná-lo semelhante à Terra.

Seu trabalho o levou desde cedo a se envolver nas equipes científicas das principais missões de exploração planetária da Agência Espacial Norte-Americana, a Nasa, tendo um papel relevante nas missões Mariner, Pioneer, Voyager e Viking. Seu trabalho envolveu a pesquisa pela origem da vida em outros mundos e a busca de inteligência extraterrestre, sendo um dos idealizadores do Projeto Seti (Search for Extraterrestrial Intelligence).

Sagan percebeu a importância de levar o conhecimento científico até o público em geral, e escreveu mais de 20 livros de divulgação e ficção científica. Sua obra reflete claramente as suas ideias sobre o papel da ciência e da astronomia no desenvolvimento da sociedade, e sobre a importância da exploração espacial para o futuro da humanidade. Em seus livros, vai além da mera exposição dos fatos científicos, convidando o leitor a refletir e se questionar sobre o que está lendo. Para quem lê um livro de Sagan pela primeira vez é difícil não se sentir cativado e querer logo partir para o próximo.

Mas em um universo bibliográfico tão vasto, por onde começar? Como ponto de partida, sugerimos sua única novela de ficção científica, Contato, publicada em 1985. O argumento parte da premissa de que o contato com uma civilização inteligente extraterrestre não se dará por visitas de discos voadores, mas por meio de mensagens de rádio. Viajando à velocidade da luz, ondas de rádio poderiam transmitir uma mensagem de uma civilização habitando um planeta em volta de alguma estrela próxima ao nosso Sol. A protagonista é uma astrônoma que trabalha no Projeto Seti e que detecta uma mensagem de uma estrela a 25 anos luz de distância. Trata-se do primeiro sinal de tevê emitido durante as Olimpíadas de 1936, que os extraterrestres receberam e retransmitiram de volta à Terra. Além dos fatos cientificamente plausíveis, o relato traz à tona os questionamentos filosóficos e religiosos decorrentes da descoberta de outra civilização. O livro virou filme em 1997, protagonizado por Jodie Foster, mas a ideia já havia inspirado o projeto que enviou uma mensagem codificada para o espaço em 1974, utilizando o radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico, e da qual Sagan foi um dos idealizadores. O relato desta e outras mensagens enviadas para possíveis civilizações inteligentes fora da Terra, como as placas das sondas Pioneer e os discos das sondas Voyager, estão refletidas no livro Murmúrios da Terra, de 1978.

A seguir, recomendamos o próprio Cosmos, publicado em 1980 com base no roteiro do seriado. Apesar de desatualizado em vários aspectos que, à época da publicação, eram desconhecidos, o livro continua apresentando uma viagem deslumbrante através da história da astronomia e dos segredos que a ciência pode nos revelar sobre o Universo.

Em 1994, Sagan escreveu uma sequencia intitulada Pálido Ponto Azul. Inspirado pela fotografia da Terra registrada pela sonda Voyager 1 em 1990, quando se encontrava a mais de 6 bilhões de quilômetros do nosso planeta, o livro questiona o suposto caráter único da espécie humana e nos desafia a imaginar como somos de fato insignificantes, colocando como premissa a importância de estudar outros mundos para entender o nosso e a necessidade de encontrar mecanismos para preservar a nossa espécie fora da Terra.

Na sequência, sugerimos dois livros que abordam diretamente a essência da espécie humana: Os Dragões do Éden, de 1977, e Sombras de Antepassados Esquecidos, de 1992. O primeiro deu a Sagan o Prêmio Pulitzer, uma das mais altas honrarias no mundo literário, ao apresentar uma perspectiva de como a inteligência humana surgiu e evoluiu a partir de considerações antropológicas e psicológicas, apelando a conceitos oriundos da biologia evolutiva e da computação científica. O livro discute sobre diferentes formas de definir e mensurar o conceito de inteligência, e especula sobre o propósito dos sonhos e dos medos inatos que todos possuímos, e como isso se vincula ao surgimento de mitos. Já no segundo livro, Sagan discorre sobre os processos evolutivos que levaram à origem das espécies na Terra, sobre a semelhança dos humanos com os animais e sobre o valor das pesquisas de Charles Darwin e sua importância para o entendimento da nossa própria espécie.

Para encerrar, há dois livros que nos levam a refletir sobre o valor da ciência para o progresso da humanidade. Em O Cérebro de Broca, de 1979, Sagan compila ensaios destinados em parte a desacreditar alguns paradoxos e teorias formulados pelo que ele chama de pseudocientistas. Os ensaios abordam também outros temas, como a importância cultural da ficção científica e a experiência da morte temporária. O título faz referência ao médico Paul Broca, que no século XIX descobriu que diferentes partes do cérebro regulam diferentes funções cognitivas. O Mundo Assombrado pelos Demônios, de 1995, objetiva apresentar ao público leigo a essência do método científico e estimular as pessoas a desenvolver o pensamento crítico e cético. O livro explica como podemos distinguir entre ideias científicas e pseudocientíficas, e como novas ideias devem ser submetidas a um rigoroso questionamento e à verificação independente por diferentes pessoas e experimentos. Sagan justifica a aplicação do princípio da “navalha de Occam”: entre duas ou mais hipóteses para explicar um mesmo fenômeno, devemos sempre escolher a mais simples, pois é a que tem mais chance de estar correta.

A nova geração de Cosmos
A presentada pelo astrônomo Neil deGrasse Tyson, a nova versão de Cosmos teve uma estreia de proporções estelares: foi ao ar em 170 países, em 48 idiomas, e contou com o presidente Barack Obama como garoto-propaganda. Sem a presença carismática de Sagan, a série se respalda nos efeitos especiais deslumbrantes, na presença de animações e no esforço de Tyson – a bordo da mesma nave Imaginação – para dar um tom ao mesmo tempo didático e cientificamente correto à série. Perde, porém, parte da força pessoal e filosófica que o astrônomo morto em 1996 dava às suas obras. Ainda assim, os 13 episódios são uma boa oportunidade para dar aos jovens espectadores uma nova visão de temas comumente estudados no Ensino Médio, como as Leis de Newton ou a ação da gravidade. Outro ponto forte é mostrar, de maneira épica, os esforços dos cientistas e pensadores ao longo dos séculos para compreender e desvendar os segredos do universo.
No Brasil, Cosmos é transmitida pelo canal a cabo NetGeo.

*Astrônomo do Observatório Nacional