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Quem foi Isaac Newton?


Faz parte do senso comum acreditar que os cientistas são pessoas extremamente racionais, alienados de valores estéticos e políticos, vivendo fora de órbita, isolados, imersos em seus pensamentos e teorias, incapazes de expressar sentimentos ou se preocupar com a vida mundana ao seu redor. Isso, porém, não corresponde à realidade.

Afinal, é possível ser cientista e estar inserido nas questões do seu tempo e espaço. Com Isaac Newton (1643-1727) não foi diferente. Acima de tudo, Newton foi um homem do seu tempo. Como tal, estava em um contexto social e histórico propício para o desenvolvimento da Matemática e da Física, cujas descobertas atendiam a uma série de necessidades sociais da época.

Leia atividade didática de Física baseada neste texto
Competência: Compreender as ciências como construções humanas, percebendo seus papéis no desenvolvimento econômico e social
Habilidades: Associar a solução de problemas com o correspondente desenvolvimento científico

1) Após a leitura do texto “Isaac Newton: um homem de seu tempo”, peça aos alunos para lerem também“As raízes sociais e econômicas do Principia de Newton”

2) Em seguida proponha que, em pequenos grupos, pesquisem e respondam às seguintes questões:

3) Quais eram as necessidades sociais apresentadas pelo autor que vão gerar o desenvolvimento da mecânica?

4) Quais os campos da Física envolvidos na solução dessas necessidades?

5) Nos séculos XVIII e XIX ocorre o desenvolvimento da termodinâmica. Qual era a conjuntura histórica desse período? Quais seriam as raízes sociais da termodinâmica?

6) Como aponta o autor, são as necessidades sociais que geram e financiam as pesquisas e a produção do conhecimento científico. Quais seriam as necessidades sociais que geram a pesquisa atual em nanotecnologia?

7) Dê a eles o tempo da aula para se organizarem e iniciarem o debate das questões. Algumas delas pressupõem pesquisas em livros e sites, além de eventual conversa com professores de História e outros.

8) Na aula seguinte, peça aos grupos que apresentem as respostas e discuta-as com a turma. Considere, na avaliação, a participação dos alunos na discussão interna do grupo, na apresentação e na discussão das respostas. Peça que registrem, finalmente, uma síntese do que entenderam no caderno.

Como um homem de seu tempo, Newton era também um místico: acreditava em Deus e chegou a escrever um tratado sobre a topografia do inferno baseado nas Sagradas Escrituras e na leitura de A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Nele, determinou o tamanho, o volume, e o raio de cada um dos círculos do inferno.

“A natureza e as leis da natureza permaneciam escondidas na noite. Deus disse, ‘Faça-se Newton’, e tudo ficou claro”, escreveu o poeta inglês do século XVII Alexander Pope. A obra de Newton, porém, não pode ser creditada a uma providência divina ou a um milagre.

Quando se afirma que a queda de uma maçã fez Newton instantaneamente descobrir a Lei da Gravidade, despreza-se todo seu poder investigativo e introspectivo e sua preocupação em resolver questões ligadas ao cotidiano da incipiente sociedade moderna.

O que o teria levado a se preocupar com a Mecânica, a Gravitação, com a Óptica e a Flutuação, entre tantas outras? Quais teriam sido as questões de sua época que direcionaram sua pesquisa e suas novas descobertas?

O período de maior produção intelectual de Isaac Newton coincide com a Guerra Civil Inglesa (1642-1651) e a consequente mudança de regime político no país: o rei perdeu seu poder para a sociedade civil, representada pelo Parlamento inglês.

O mercantilismo e a manufatura começavam a dar lugar à produção industrial, à mecanização da produção e à consequente reorganização do mundo do trabalho. Essa revolução social prescindia de outra, no campo da ciência e da tecnologia.

O desenvolvimento do capital mercantil impunha, entre outras, melhoras no transporte e na artilharia. O transporte de mercadorias por terra era precário no século XVII. Havia pouquíssimas estradas e a velocidade média do transporte terrestre não superava 9 quilômetros por dia.

O naval era melhor, mas também deficiente. Já havia a bússola, mas não bons mapas geográficos. Além disso, para a boa localização no mar aberto era necessário o aprimoramento das medidas de tempo.

Nesse sentido, a melhora dos meios de transporte exigia o desenvolvimento de melhores navios, métodos de localização e previsão das marés, e a construção de canais e eclusas, problemas da Hidrodinâmica e da Mecânica Celeste.

No campo de batalha, era necessário entender o que ocorria com a arma durante o tiro (particularmente o seu recuo), além da determinação da trajetória dos projéteis através do ar.

Não é à toa que Newton investigava a gravitação: ela explica as marés, permitindo sua predição, o movimento dos planetas, que auxilia na localização dos navios no mar aberto, e contribui para determinar a trajetória dos projéteis.

Conhecida como Terceira Lei de Newton, a Lei da Ação e Reação permite entender o recuo das armas e o movimento de corpos em meios resistivos que, por sua vez, ajuda a melhorar a navegabilidade dos navios, a determinar a trajetória mais exata dos projéteis, a aumentar a eficiência dos transportes por terra, entre outros.

Seus estudos em Óptica ampliaram a distância observada pelos olhos humanos, melhorando a localização dos navios e dos alvos da artilharia, por exemplo.

Isaac Newton, como ser social, estava preocupado com as dúvidas e problemas do seu tempo e contribuiu, de maneira decisiva, para a superação de várias questões e problemas apresentados pela História.

* Gustavo Killner é professor de Física do Colégio Santa Cruz