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Corrupção é reflexo da cultura na qual o País está inserido

Quando atentamos para os noticiários repercutindo o nível escabroso em que se encontra o problema da corrupção na esfera pública brasileira (pense-se aqui: governo, empresários, entidades representativas, partidos), o primeiro sentimento que se experimenta é de revolta e frustração.


Sentimento que se dissemina na sociedade, colocando todos em estado de indignação, pois contradiz as expectativas que temos de uma sociedade justa, democrática e que tem na ideia de bem-estar comum um valor e um princípio básico.

Leia atividade didática de Redação baseada neste texto
Competências: Confrontar opiniões e pontos de vista
Habilidades: Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos;Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público

As redes sociais podem se constituir num espaço curioso de exposição de ideias. Por integrar pessoas de diferentes lugares e classes sociais, nela o debate se estabelece de forma ampla.

Criatividade e pertinência nas proposições tendem a atrair olhares e desencadear reflexões, podendo contribuir de forma curiosa para a participação política e a formação de opinião. A sequência de atividades a seguir propõe a produção de duas cartas abertas a serem publicadas nesses espaços.

Por meio delas, os estudantes buscarão expor aspectos que envolvem a experiência de corrupção no registro de duas circunstâncias sociais: do político e seus cúmplices e do cidadão comum e seus interlocutores.

Para a realização da atividade, a sala pode ser dividida em dois grupos, ficando cada um responsável por uma carta. A primeira carta deve ser dirigida aos políticos e empresários que se sentem tentados pela experiência da corrupção quando a oportunidade aparece.

1. Inicialmente, os estudantes devem levantar o maior número possível de informações sobre os principais escândalos envolvendo corrupção na esfera municipal, estadual e federal nos últimos anos: envolvidos, volume financeiro desviado, circunstâncias favorecedoras da corrupção, ganhos de cada parte, punições.

2. Posteriormente selecionarão, nas matérias publicadas sobre esses escândalos, dados e depoimentos que deem a dimensão do significado que esses episódios tiveram tanto do ponto de vista social (perdas na qualidade dos serviços, interdição de obras de relevância para a população) quanto moral (declarações cínicas dos envolvidos, tentativas de minimização das consequências do ato de corrupção, afirmações reveladoras da falta de constrangimento dos envolvidos nas acusações).

3. Pode ser curioso recuperar a história da corrupção no País: os casos mais marcantes desde o Descobrimento.

4. Dialogando com essas informações, os estudantes devem escrever uma carta aberta aos corruptores, dialogando com eles, argumentando sobre o significado de seus atos, e alertando aqueles que possam se sentir seduzidos por esse papel sobre a importância de evitá-lo. Dadas as circunstâncias de publicação, manifestações de protesto, expressões de ironia e humor na medida certa podem qualificar o texto. É importante que tanto aqueles a quem a carta se destina quanto aqueles que podem identificar no discurso dela a expressão de seu ponto de vista encontrem argumentos que deem a dimensão da importância do repúdio a todo ato de corrupção. A segunda carta deve ser dirigida aos cidadãos comuns que já se viram expostos à experiência da corrupção.

5. A segunda carta deve ser dirigida aos cidadãos comuns que já se viram expostos à experiência da corrupção

6. Os estudantes, divididos em pequenos grupos, podem ler diferentes textos tematizando a corrupção enquanto fenômeno social, psicológico, biológico ou em seus aspectos filosóficos. Esses textos podem oferecer elementos para problematizá-la enquanto fenômeno complexo e, posteriormente, abrir espaço para proposições de como enfrentá-la no dia a dia.

7. Em seguida, devem fazer um levantamento prévio das situações de corrupção às quais as pessoas comuns podem estar expostas. Levando em conta essas situações e questões que os textos lidos na atividade anterior suscitaram, devem organizar uma pesquisa quantitativa junto à comunidade escolar (é importante que os pesquisados permaneçam anônimos, tendo em vista a confiança dos dados). A ideia é identificar as situações de corrupção em que já se viram envolvidos e, na medida do possível, a percepção que tiveram do fato: constrangeram-se, repetiriam-na, acham-na aceitável etc.

8 Repete-se a atividade 4 proposta ao grupo anterior. Concluída a escrita, cada grupo revisa o texto produzido pelo outro, considerando os aspectos determinantes do gênero – carta aberta, os aspectos linguísticos, e indica as correções necessárias. Por fim, efetua-se a publicação nas redes sociais.

Entretanto, não há nada de novo nos fatos noticiados. Em todos eles podemos ver o reflexo de uma cultura na qual o País esteve mergulhado desde sempre, e com a qual, historicamente, foi mais ou menos tolerante. Cultura que permeia todos os estratos sociais, desenrola-se cotidianamente diante de nossos olhos e com a qual nem sempre é fácil rivalizar.

A novidade está no fato de que o País apresenta hoje – eis aqui uma das conquistas da democracia que pouco a pouco vamos consolidando – uma circunstância que raramente experimentou: instituições relativamente fortes e independentes para apurar e denunciar tais crimes, destaque aqui para a Polícia Federal e o Ministério Público. O resultado disso é algo inédito em nossa história: políticos e empresários que se sentiam à vontade para roubarem o que não lhes pertencia, independentemente de sua origem ou filiação partidária, estão sendo chamados a pagar por seus crimes.

Dessa perspectiva, não há dúvidas de que algo diferente está acontecendo e precisa ser comemorado. Os crimes do colarinho-branco tornaram-se mais públicos e uma mensagem começa a repercutir: eles já não mais ficarão impunes tão facilmente. Se, como sugere a pesquisa publicada na matéria anterior, pessoas tendem a se sentir mais à vontade para atropelar a ética quando acham que não serão flagradas ou punidas por isso, é muito importante que experiências como as dos desvios de recursos da Petrobras ou do metrô de São Paulo tenham os seus responsáveis exemplarmente punidos.

Por outro lado, este é um momento oportuno para trazer essa questão para a experiência cotidiana mais próxima de nós. Para isso, também precisamos nos perguntar de que maneira nossas ações dialogam com as expectativas que temos de uma sociedade justa, democrática e que tem na ideia de bem-estar comum um valor e um princípio básico.

Furar a fila da cantina, comprar um trabalho acadêmico, andar pelo acostamento, fazer vistas grossas ao plágio de um texto, subornar um guarda para não ser multado, comprar um atestado médico, assinar a lista de presença por um colega, falsificar a carteirinha de estudante: as pequenas corrupções cotidianas também precisam ser condenadas e as circunstâncias que as favorecem, problematizadas. Caso contrário, corremos o risco de nos vermos marcados pelo cinismo que condenamos nos políticos e em seus cúmplices.

A sequência de atividades a seguir tem como objetivo aproximar essas duas facetas da corrupção: a do gestor público e seus cúmplices e a dos cidadãos comuns e seus interlocutores. É possível que, se mantivermos um debate franco e honesto sobre como a corrupção se instaura nas práticas cotidianas e conseguirmos, a partir dessa reflexão, estabelecer alternativas para coibi-las ou eliminá-las, possamos dar um passo exigente, mas significativo para a consolidação de uma sociedade mais justa.

*José Carlos de Souza é professor de pós-graduação do curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz